Não deve existir na
cidade do Porto um edifício que exprima com tamanha elegância o cruzamento
entre as linhas da arquitectura Art Deco
com o autêntico Modernismo e um toque mais ténue do Português
Suave (acusado por um painel em relevo exterior e noutros detalhes).
Classificado como Monumento de Interesse Público desde 2012 quase admira que se
encontre subaproveitado e careça de um projecto que o reanime e trave a sua
degradação (quase, porque se tratando de Portugal casos do género não surpreendem
– ou a burocracia para intervencionar num imóvel classificado continua a ser
demasiado restrita e difícil de ultrapassar, ou não se sabe bem o que se fazer
quando não se dispõe de muito dinheiro para intervir, ou teme-se inovar, ou o
poder local manifesta o seu desinteresse ou completa falta de visão).
Arrojado e inovador
para a época, o Cinema Batalha foi projectado pelo arquitecto Artur Andrade em
1944 para substituir a sala de projecção de cinema High Life de 1908 (certamente muito influenciada pelo espírito da Bélle Époque que introduziu no Porto as
linhas da Art Nouveau). De planta
trapezoidal e com quatro pisos (um ocupando o espaço da cave) este imóvel
dispõe de dois auditórios e espaço para bares e restaurante, tendo vindo a
integrar elementos notáveis de pintura e escultura. Inaugurado em 1947,
funcionou durante décadas como um dos principais cinemas do Porto, até que a
construção dos novos shoppings nos
finais do século XX retirou espectadores para novas salas de cinema que
deixaram os antigos, como este, em risco de encerrar de forma definitiva. O
Cinema Batalha fechou, pois claro, embora posteriormente o Gabinete Comércio
Vivo (uma parceria entre a Associação dos Comerciantes e a Câmara) exploraram
um dos seus bares e espaço de restauração, bem como a maior sala de
espectáculos para eventos diversos. Mas em 2010 voltou às mãos da empresa Neves & Pascaud, que o mantém aberto
e procura dele fazer uso da forma que lhe é possível.

Quando se pensou em
construir a Casa de Cinema Manoel de Oliveira foi um erro não se ter pensado
neste magnífico espaço cultural do Cinema Batalha, que era bem mais adequado do
que o edifício caro de Souto Moura que permaneceu fechado durante tantos anos num
local afastado do centro. O mesmo se poderia dizer da nova Casa da Música
projectada para a Porto 2001 – porque construir algo que custou tanto e veio a
ser inaugurado tardiamente quando o Cinema Batalha, se fosse devidamente
reaproveitado, dispunha na altura de um auditório promissor? E se falamos de
música, porque não poderia servir também de sede para o Orfeão do Porto? Curiosamente,
numa cidade que se tornou recentemente aberta à cultura, há excepção de algumas associações e iniciativas privadas, o poder local nunca pondereu ter um espaço magnífico e mais convidativo para a projecção de cinema alternativo ou independente –
mesmo tendo em conta algumas restrições, porque não o Cinema Batalha?
Outras ideias e
projectos para o Cinema Batalha poderiam ser equacionados e conjugados, pois uma
coisa certa: independentemente do que se pense ou não em fazer, tendo em conta
as vontades das diversas entidades que aqui mencionamos, não convém é que se
desista de recuperá-lo e dar-lhe nova vida; permitir que se continue a degradar
poderá sair bem mais caro do que um projecto arriscado para reaproveitá-lo.
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