24/01/2014

A Fábrica de Cerâmica das Devesas


A antiga fábrica de Cerâmica das Devesas foi fundada nos anos 60 do século XIX pelo canteiro marmorista António Almeida da Costa que fez sociedade com o notável escultor e ceramista José Joaquim Teixeira Lopes e outros. Juntos, criaram uma das mais importantes e bem-sucedidas fábricas de cerâmica da Península Ibérica, cujos produtos vieram a ter uma ampla aplicação na arquitectura do nosso país. Só para se ter em conta a sua importância, convém referir que José J. Teixeira Lopes, principal artista da fábrica, criou um curso de desenho e modelação que influenciou uma geração inteira de artistas, dando origem à Escola Industrial Passos Manuel, em Vila Nova de Gaia, e servindo de inspiração para os seus dois bem-sucedidos filhos António Teixeira Lopes (escultor) e José Teixeira Lopes (arquitecto).


A Fábrica de Cerâmica das Devesas tornou-se um gigantesco complexo industrial que incorporou os melhores artistas da época. Actualmente, num único passeio pela cidade do Porto, é possível reconhecer casas e palacetes cobertos de azulejos ou com tijolos e estatuetas originais desta importante fábrica.


Como complexo industrial, estendeu-se à própria Estação Ferroviária das Devesas e deu origem a um completo bairro operário no qual residiam os seus trabalhadores. A fábrica chegou a ter a sua própria fundição onde foram explorados objetos decorativos em ferro. A sua loja no Porto, na Rua José Falcão, que corresponde a um palacete revivalista islâmico, ainda conserva o que esta fábrica produziu de melhor, com uma bela fachada revestida de azulejos neoárabes. Temos aqui o melhor exemplo da associação entre a arte e a indústria que resultou numa grande empresa de qualidade – uma característica que parece ser de outros tempos, quando Portugal foi um país de maior capacidade produtiva.


A Fábrica de Cerâmica das Devesas é no mínimo emblemática e tem espaço mais que suficiente para servir de museu e albergar serviços ou pequenas empresas. Esteve inclusive para ser transformada num museu em meados dos anos 80 do século XX, quando já estava encerrada. E até o IGESPAR esteve em vias de classificá-la, nos anos 90. No entanto, na actualidade, continua desaproveitada e é uma pena, pois toda a sua recuperação (a par de outros locais emblemáticos como parte da Fábrica do Fojo e a Fábrica de Santo António do Vale da Piedade) catapultaria Vila Nova de Gaia como uma séria cidade candidata a ser classificada pela UNESCO, que só poderiam nomear todos estes complexos no seu conjunto como o melhor dos exemplos do património industrial da cerâmica do norte de Portugal que caracterizou toda uma época.




3 comentários:

  1. Tenho um post no meu blog sobre a filial da Cerâmica das Devesas na Pampilhosa do Botão na região de Coimbra. Vejam em: http://mikoslab.blogspot.pt/2013/04/devesas.html

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    1. Caro João Silvano, é com todo o prazer que apreciamos e gostamos de ler o seu post sobre a Fábrica da Cerâmica das Devesas e a sua filial. Toda a história acerca desta fábrica e relacionada com a sua actividade é longa e marcante. E até estamos dispostos a relembrar este tema, partilhando o mesmo post de blog na nossa página de facebook.

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  2. É com tristeza que dia após dia, mês após mês, ano após ano se vê que nada mudou na antiga Fabrica de Cerâmica das Devesas. Tive a oportunidade de fazer um estudo sobre esta unidade industrial sob a orientação da Professora Doutora Eduarda Moreira da Silva e mais tarde apresentado na Universidade do Minho, do não menos ilustre Professor José Manuel Lopes Cordeiro.

    Desde esse tempo até hoje nada mudou a não ser a contínua destruição de um espaço que em muito engrandece a cidade de Vila Nova de Gaia na sua longa tradição cerâmica. A inoperância do poder político e camarário tem levado a esta situação de degradação que a continuar, irá levar ao desmoronamento total do edifício.

    Faça-se justiça ao espaço e a todos os que nele trabalharam para dignificar ainda mais a cultura de Vila Nova de Gaia.

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