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10/05/2016

Prédio Gaveto Rua Miguel Bombarda/Rua de Cedofeita



No gaveto da Rua de Cedofeita com a Rua Miguel Bombarda localiza-se um prédio muito interessante que só choca devido ao estado de degradação a que chegou. Pior do que o seu estado devoluto só mesmo o vandalismo que acabou por sacrificar muitos azulejos das fachadas que ainda os contêm, de uma viva tonalidade laranja, que chama muito facilmente a atenção e cativa a curiosidade por quem ali passa.

O prédio dispõe de várias entradas, assinaladas pelos números 139-143-145-149 ocupados por galerias comerciais ainda em plena actividade (e muito mais cuidadas) viradas para a Rua de Cedofeita, enquanto dispõe de um portão e outras entradas viradas para a Rua Miguel Bombarda, da qual se vê as suas traseiras, que acusam uma degradação praticamente generalizada. É curioso como o prédio acusa uma disposição palaciana e conjuga uma influência marcadamente neoclássica – são visíveis frontões circulares sobre as janelas em guilhotina na fachada principal virada para a Rua de Cedofeita, várias cornijas salientes em que na fachada virada para Miguel Bombarda relembram no seu encontro a parte superior de um frontão triangular e as janelas quadradas do último piso lembram mezaninos (entre outros detalhes) – com a arquitectura privada portuense característica da segunda metade do século XIX.

Cientes de que a Rua de Cedofeita foi rasgada no século XVIII por vontade de João de Almada e Melo e, tendo em conta os pormenores construtivos do imóvel, não nos admiraria que as suas origens remontam a esta época (embora seja uma hipótese que certamente levante muitas dúvidas). Ignoramos o nome do seu arquitecto, mas sabemos que a sua configuração actual resulta sobretudo das intervenções de um proprietário abastado chamado João Borges de Almeida, que aqui residiu nos anos 70 do século XIX; é João Borges de Almeida quem requere licença à câmara para construir uma cocheira nas suas traseiras em 1876, quem intervenciona nas suas fachadas no mesmo ano (tendo certamente sido o responsável por mandar revesti-las por painéis de azulejos e colocar o gradeamento nas suas varandas), e que opta por construir um muro de vedação e o portão virado para a Rua Miguel Bombarda (então designada por «Rua do Príncipe») em 1877. A crer que o prédio não tenha sido erguido senão no século XIX e que a sua construção se deva antes à vontade de João Borges de Almeida, o que acabamos de descrever será muito provavelmente um edifício “neo-almadino” e não “almadino”, como algumas das suas características podem levar a crer.

04/04/2016

Prédio Nºs 109 - 113 na Rua do Bonjardim

Um dos mais pequenos prédios da Rua do Bonjardim é dotado de uma aparência peculiar que causa curiosidade e estranheza mesmo entre os turistas. Já foi uma cervejaria muito conhecida para quem transitava pelo centro da cidade – a Cervejaria Stadiun – e é evidente que apresenta as características ideais para funcionar como cervejaria ou pub, embora já se encontre abandonada há um bom tempo.

Distingue-se por causa da sua fachada gótica que data de 1922, executada por vontade da Parceria Vinícola do Norte Lda., tendo demolido as entradas originais do pequeno prédio para conter os novos, de portas em ferro e vidro com três arcos ogivais sustentados por colunas de capitéis com folhagens. À decoração da fachada juntam-se outros detalhes, como os pináculos com cogulhos. O seu interior também foi inteiramente remodelado no mesmo ano, pois a Parceria Vinícola do Norte pretendia fazer do mesmo um edifício social com uma funcionalidade adequada.

É perfeitamente natural que com o passar dos tempos o pequeno prédio tenha sido alterado, mas não perdeu a sua graça ou a fachada exclusiva que o caracteriza.

Junto ao pequeno prédio situa-se outro, bem mais alto, certamente contemporâneo dos Nºs 109 - 113 (não da fachada revivalista, mas do prédio original) que se encontra igualmente devoluto – se o conjunto fosse devidamente aproveitamento, um como bar/pub e outro possivelmente como hostel, esta parcela da Rua do Bonjardim teria uma aparência bem mais convidativa.

28/03/2016

Prédio Nº383 – 385 Rua de Alexandre Herculano

E pronto! Encontramos mais um exemplar Art Deco da autoria do arquitecto Mário Augusto Ferreira de Abreu num péssimo estado (e julgamos ainda ser capazes de descobrir mais). Desta vez foi na freguesia da Sé, na Rua de Alexandre Herculano, onde o estado de vários edificações continua a dar uma péssima imagem para esta cidade – relembrando que todos os dias chegam aqui pessoas provindas dos mais diversos pontos do país através de camionetas de transportes de passageiros, para além dos turistas que se espantam e questionam como é possível imóveis históricos chegarem a tamanho estado de degradação.

Enquanto não vemos pequenas placas ou sinais a marcar roteiros das obras dos mais notáveis arquitectos da cidade do Porto (começando evidentemente por Nicolau Nasoni e José Marques da Silva) ou não evoluímos no sentido de uma promoção mais eficaz da Art Deco (como da Arte Nova – porque motivo ambos os estilos são quase eclipsados nos livros de História de Portugal e procura-se destacar mais o que foi feito noutros países da Europa durante o mesmo período de tempo?), pelo menos vamos ansiando pela reabilitação de um prédio que já deveria ter sido reabilitado há um bom período de tempo.

A história deste prédio recua ao ano de 1937 quando o dono do terreno onde actualmente se encontra, Augusto Alberto de Souza, residente na Rua do Bonfim, planeia e requere licença para a construção de um imóvel que sirva de recolha de carros e contenha habitações. Mais tarde, em 1939, confiando o projecto a Mário Augusto Ferreira de Abreu, opta por alterá-lo substancialmente, embora acabasse por servir na mesma o propósito que o proprietário planeava. Ainda hoje serve de parque de estacionamento automóvel – os pisos da habitação é que se encontram vazios (ou pelo menos tudo assim o indica, dados os sinais exteriores).

Além de um antigo conjunto envidraçado do primeiro piso se encontrar completamente emparedado, a fachada do prédio encontra-se de tal forma degradada que o próprio betão aparece corroído, como se tudo o que revestisse a estrutura do imóvel estivesse a derreter. Para quem ali passa não é difícil perceber que se não for intervencionado o quanto antes, vários pedaços de betão e reboco continuarão a cair… Só esperamos que não atinja ninguém ou que não se liberte algum pedaço grande o suficiente capaz de causar sérios danos a pessoas e viaturas. 

16/03/2016

Prédio Nºs 23 - 27 na Rua Correia de Sá

Aquela que é hoje a Rua Correia de Sá, com ligação à Avenida da Boavista, era outrora parte do local conhecido como Lugar da Fonte da Moura e existia uma linha de caminho-de-ferro bem próxima com ligação à Foz que permitiria localizar com maior precisão esta artéria ainda por baptizar no início do século XX.

Numa zona caracterizada por moradias burguesas da alta classe média ou até mesmo da classe alta, este prédio foi erguido sem grandes pretensões, sendo antes fiel às mesmas linhas do típico casario do Porto que podemos reconhecer desta época. A sua construção data de 1914 e o seu primeiro proprietário foi Benjamim Alfredo Amorim, que adquiriu o lote um ano antes. Existiu um primeiro projecto datado de 1913 entregue ao mestre-de-obras José Joaquim de Carvalho, mas o proprietário não o apreciou e optaria por alterá-lo.

O prédio que hoje reconhecemos é simétrico, possuí duas entradas para duas habitações separadas, como era típico da época (embora não tenhamos a certeza se acabou por servir esse propósito), apesar de estreitas, e tem apenas dois pisos, mais uma época divisão acrescentada nas águas furtadas, que não ocupada muito mais do que a largura de uma vulgar janela. São os azulejos vermelhos que lhe dão maior vivacidade. Já perdeu a sua varanda em ferro forjada e boa parte dos azulejos que revestem a sua fachada, sendo vísiveis os estragos que contribuem para a sua degradação, mas ainda assim mantém uma certa graça e causa curiosidade, destacando-se numa rua composta por edíficios que datam sobretudo de décadas posteriores.

14/03/2016

Prédio Nº182 na Rua dos Mártires da Liberdade

Entre os vários edifícios que se podem encontrar na Rua dos Mártires da Liberdade, existe uma habitação que ocupa todo um prédio e cuja fachada se destaca da maioria. Trata-se do Nº182, um prédio dotado de uma certa elegância com uma fachada de granito cuja composição ecléctica se deixa influenciar pelas linhas de José Marques da Silva e pela arquitectura medieval – sobretudo a nível das janelas do primeiro piso, sobrepujadas por um arco gótico.

Este revivalismo medieval encontra ecos na arquitectura da época, principalmente entre as obras emblemáticas de maior destaque, mas não nos foi possível identificar até ao momento o arquitecto responsável pelo projecto deste prédio singular, embora não nos surpreendesse que fosse uma obra de Francisco de Oliveira Ferreira (1884 – 1957), discípulo do próprio José Marques da Silva e de José Teixeira Lopes, tendo projectado dentro do mesmo período o prédio do Club dos Fenianos Portuenses, de 1919.

Do pouco que sabemos sobre esta casa resta-nos o nome do seu primeiro proprietário, Joaquim Ferreira da Costa, que a mandou construir em 1918 para nela habitar. Com uma fachada quase inteiramente coberta de granito, cuja leveza é mais assegurada pelas janelas e pela presença de arcos, sobretudo o que rasga o segundo piso e é apoiado por uma coluna dórica e dispõe de uma balaustrada, quase passa despercebido o curto painel de azulejos azuis e brancos com elementos vegetalistas que podemos encontrar noutros tons noutras moradias e prédios do início do século XX espalhados pela cidade do Porto, que não seguem apenas as linhas da Arte Nova, mas que representam de forma inequívoca o Green-Man com a fidelidade de uma linha revivalista gótica presente noutros elementos decorativos da arquitectura da cidade que permaneceu viva e adaptada a novas correntes estilísticas. 

19/02/2016

Conjunto de Prédios na Rua do Barão de Nova Sintra


A aparência desoladora deste conjunto edificado não esconde os anos de abandono e de vandalismo que tem sofrido sem que ninguém se preze e protegê-lo ou reabilitá-lo. O proprietário que ergueu estes prédios na segunda metade do século XIX, possivelmente esperando que a Rua do Barão de Nova Sintra se urbanizasse mais com o passar dos tempos, certamente não havia imaginado que passados cem anos se encontrassem neste estado.

Os prédios foram erguidos entre 1879 e 1880 por vontade do negociante João Leite de Faria, proprietário deste terreno, que os mandou erguer tendo em vista o seu arrendamento. João Leite Faria era igualmente proprietário de vários prédios noutras freguesias do Porto, incluindo do conjunto de prédios na Rua Formosa que se situam em frente a uma das entradas principais do Mercado do Bolhão (do 313 ao 353), juntamente com outros dois sócios. Ao contemplarmos a fachada do conjunto virada para a Rua do Barão de Nova Sintra, especulamos se outrora não esteve completamente coberta de azulejos, tal como ainda se encontra o prédio do meio, embora parte já tenha sofrido sérios danos.

É uma pena que assim se encontrem, pois o seu estado remete-nos para outros exemplos de conjuntos de prédios edificados no Bonfim e até mesmo noutras freguesias que estão abandonados e que poderiam ser intervencionados o quanto antes por um município interessado em promover novos paradigmas de habitação social, começando por não construir novos prédios nas periferias, mas antes em aproveitar uns quantos mais próximos do centro da cidade para integrar parte da população autêntica de uma cidade cujo centro alterna entre a desertificação e os interesses imobiliários privados de quem pouco ou nada se interessa em zelar pela permanência dos habitantes originais do Porto.  

16/02/2016

Edifício de Habitação Nºs 1182 – 1228 na Rua de Santa Catarina



O Edifício de Habitação composto por vários números que dão uma ideia de serem separados só são reconhecidos como parte de um conjunto devido a algumas semelhanças entre si e a sua ligação com a parcela que é rematada por um frontão triangular de influência neoclássica. Por outras palavras, o conjunto segue em si as linhas da arquitectura da Época dos Almadas que podemos encontrar em algumas ruas históricas do centro histórico do Porto, mas na verdade é da segunda metade do século XIX e não do século XVIII. Não é por acaso que alguns investigadores se referem a este tipo de edifícios no Porto como «Pós-Almadino» e achamos o tema mais do que adequado.

O proprietário responsável pela sua construção, efectuada a partir de 1868, foi o “brasileiro” José Pereira Loureiro, que a partir de 1870 se torna visconde de Fragosela. Na época em que encomendou o projecto da obra os lotes encontravam-se desocupados e correspondiam a um troço da antiga Rua da Princesa, no tramo final da Rua de Santa Catarina. O projecto foi entregue ao engenheiro Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa e foi acompanhado pelo arquitecto Pedro de Oliveira e pelo mestre-de-obras públicas José Luís Nogueira, que deram ao edifício uma aparência de palácio urbano – similar a outros projectos do mesmo engenheiro, fiel às linhas da arquitectura neoclássica.

O monumental edifício acabou por sofrer várias alterações nas águas furtadas a partir de 1878, destacando-se os vários acréscimos ao mesmo nível do frontão triangular central (sendo o último de 1922). Mas as adulterações piores vieram com a introdução de azulejos diversificados e em desarmonia, com uma primeira garagem em 1923 e sobretudo com a demolição de duas das suas parcelas a norte durante a segunda metade do século XX, substituídas por um prédio que o descaracterizou gravemente. Não bastava estar apenas desfigurado e quase esquecido – é um pedaço de património valioso que faz parte da História, mesmo que muitos não o saibam – também tinha de acabar parcialmente devoluto e abandonado, infelizmente.

05/02/2016

Prédio Nº11 do Largo do Viriato

É lamentável que este prédio de habitação já se encontre abandonado e com sinais de degradação há tantos anos (embora não seja o pior caso) – tanto mais que foram muitos os esforços feitos para tentar vendê-lo. Um tanto austero e despojado, só se destacando pelos gradeamentos das estreitas varandas e o seu conjunto de três janelas no último piso, estreito e diferenciado, relembra alguns dos velhos prédios do final do século XVIII erguidos durante a Época dos Almadas, embora seja cem anos mais recente ("pós-almadino").

O prédio foi mandado construir por Manuel Joaquim de Araújo Costa em 1883, que nele habitou a partir dessa data. Não há muito mais a dizer sobre este homem para além de ter sido proprietário de outros prédios, arrendando os seus apartamentos – incluindo na Rua do Almada como o que ocupa os números 508-510-512-514, erguido em 1855 e que apresenta uma arquitectura semelhante. Mas Manuel Joaquim de Araújo Costa também se destaca por ter sido um dos membros fundadores do Club Portuense em 1857, dando-nos a comprovar que a sua área de actividade centrava-se muito naquela área da freguesia de Vitória em especial (que foi mais tarde ocupada pelo Palácio Conde de Vizela, pelo Hotel Infante Sagres e outros edifícios que na verdade fazem parte da actual zona da movida de uma forma geral).

Ruínas de Prédio-Fábrica na Rua da Bandeirinha



Do que resto do que outrora chegou a ser uma fábrica destinada a refinação de açúcar, torrefação de café e produção de chocolate é a sua bela fachada que dá conta de várias décadas de utilização (e provavelmente com propósitos diferentes) até cair no abandono. Não sabemos (ainda) a sua história recente; apenas de que está em ruínas «há uma dúzia de anos (?)» e que só passa despercebida por se situar na estreita e pouco frequentada Rua da Bandeirinha.

Apesar de tão pouco sabermos sobre o seu passado recente, conhecemos as suas origens. Antes de ser um prédio, com a actual configuração, foi na verdade um local ocupado por outros destinados a habitação. É preciso referenciar que esta rua tem séculos e uma ocupação muito antiga e assim o confirma a antiguidade de alguns edifícios presentes (séc. XVII – XVIII) e a história da freguesia de Miragaia, que revela a existência de habitações de pescadores e da população judaica neste arrabalde. No entanto, o passado mais remoto que conhecemos do terreno onde se situa o prédio em questão fala-nos de uma proprietária de nome Felismina Adelaide Rodrigues Aires de
Gouveia que em 1883 constrói aqui um primeiro prédio, cujos números indicam que seria bem mais estreito do que o actual (ou do que resta dele). Posteriormente, já em 1920 outro proprietário chamado Abel de Lacerda constrói outro prédio mesmo ao lado do mais antigo (erguido por Dona Felismina). Mas passados apenas três anos, em 1923, o empreendedor Tomás Augusto Ferreira é que adquire ambos os prédios e constrói sobre ambos o edifício que ocupará parte do antigo prédio de Dona Felismina e o de Abel de Lacerda, tencionando ali construir a sua fábrica. 

Como fachada de fábrica é sugestiva. Dá ideia de ser um palacete embelezado por alguns elementos vegetalistas de influência barroca que contrastam com a restante austeridade do edifício, contrária à opção de usar os mesmos detalhes em painéis de azulejos segundo a moda da Belle Époque (anterior à deste período de transição, que vai passar a incorporar uma linguagem mais severa, sem contudo abdicar de alguns ornamentos com toques de revivalismo, e abrir caminho à Art Deco). Mas é provável que a própria fachada tenha sido idealizada numa data posterior à instalação da própria fábrica e alguns registos comprovam que Tomás Ferreira alterou o seu projecto várias vezes entre 1923 e 1924, contando com o apoio do mestre-de-obras Justino de Fontes Santos - e sempre se referindo às suas alterações posteriores como «prédio» e não como fábrica.

22/01/2016

Duas Distintas Casas na Avenida Fernão de Magalhães


Para quem costuma passear pela cidade do Porto, seja de carro ou a pé, não é invulgar encontrar duas casas ou dois prédios, lado a lado, abandonados e devolutos (até há exemplos de quatro ou cinco). Chamamos a esse fenómeno «Contágio Duplo» que, pela força de vários motivos que merecem ser estudados, leva-nos muitas vezes a confundir dois prédios como um só, principalmente quando a sua arquitectura não é muito distinta ou interpretamos dois casos distintos como se tratasse de algo único.

Esta confusão é justificável em muitos casos – ainda mais se julgarmos que duas casas ou dois prédios contíguos, idênticos, pertenceram ao mesmo proprietário. Mas no que toca ao exemplo de duas habitações na Avenida Fernão de Magalhães (os números 1207 e 1212 – 1216) não deveria haver margem para este género de equívocos. Cada uma apresenta diferentes características, já que são de épocas diferentes, embora não sejam completamente dissonantes entre si. Antes se diria que existiu uma procura de coerência no mais novo imóvel, que corresponde aos números 1212 e 1216.

Não sabemos quem foi o primeiro proprietário ou o arquitecto responsável pelo Nº1207, que apresenta alguns gradeamentos interessantes. A referência mais antiga desta casa refere uma proprietária, Eufrásia da Costa Gonçalves Vasconcelos, mas já é dos anos 30 e percebemos que fez obras de manutenção numa casa com já várias décadas de existência, datando possivelmente da mesma altura de abertura da Avenida Fernão de Magalhães (mas continuaremos a investigar para ver se descobrimos mais).



Em relação à casa com os números 1212 – 1216 dispomos de mais informação, que em termos históricos, principalmente no que toca à História da Arquitectura do Porto, é relevante. Um dos seus proprietários foi o arquitecto Mário Augusto Ferreira de Abreu, a cuja autoria correspondem alguns dos prédios mais notáveis da primeira metade do século XX situados na freguesia do Bonfim (e não só). O outro proprietário da casa (pois possuiu duas habitações separadas, ao contrário do que seria de esperar) era João Soares de Bastos, enquanto o principal técnico da obra foi o engenheiro Joaquim Mendes Jorge. Foi construída no ano de 1935 e reconhece-se uma ténue influência Art Deco (ou mais um vestígio severo) que podemos identificar noutros prédios da cidade, como os muito similares Nºs 32 – 36 da Rua de Brás Cubas da autoria de Mário Augusto Abreu, o que nos leva a concluir que esta casa foi desenhada precisamente pelo seu proprietário arquitecto. 

20/01/2016

Abandonados entre a Avenida de Camilo e a Rua do Bonfim

Durante anos esta imagem de um prédio influenciado pelas linhas da Art Deco de entradas completamente entaipadas e de um prédio característico com vários painéis de azulejos incomodava com passava pela Avenida de Camilo. Houve até quem julgasse que se tratasse de um único imóvel, mas um olhar mais atento comprovará que são ambos distintos.

Actualmente, o prédio mais devoluto (que na realidade apresenta as suas traseiras para a Avenida de Camilo enquanto a frente principal se situa na Rua do Bonfim) está a ser intervencionado e a sua recuperação irá mudar por completo o cenário com que durante muitos anos nos deparamos. Data da segunda metade do século XIX, mas a sua característica mais notável diz respeito ao espaço onde funcionou a Antiga Tabacaria Veludo – nome pelo qual ficou mais conhecido o prédio – que ocupou os Nºs 84 e 86 da Rua do Bonfim a partir de 1932 segundo vontade da proprietária Maria do Carmo Resende da Silva, que intervenciona neste imóvel de modo a conter uma pequena galeria comercial que ainda hoje lá se encontra. Esperamos que no decorrer das obras de reabilitação que ao menos não sejam removidas as históricas letras da “Antiga Tabacaria Veludo”, relíquia gráfica dos anos 30 do séc. XX.

Já o prédio que se encontra ao lado, que também faz contacto com a Rua do Bonfim mas cuja fachada mais expressiva se encontra virada para a Avenida de Camilo (Nºs 344 – 346), não vai receber uma intervenção tão depressa. Com linhas muito rígidas, mas menos agravadas pelos relevos de flores em betão, foi construído segundo vontade do industrial Manuel Pinto de Azevedo, contando com o apoio financeiro de Carlos Manuel Mendonça de Azevedo Carvalho, com o propósito de arrendar os seus apartamentos. O prédio data de 1932 e o responsável pelo projecto foi precisamente Carlos Manuel Mendonça de Azevedo. Mais tarde, em 1935, o proprietário conta com o arquitecto Leandro de Morais para expandir o conjunto edificado para arrendamento e por sua vontade é erguido o prédio curvo que se situa no canto entre as Ruas do Bonfim e a Avenida de Camilo. Este, pelo menos, não se encontra vazio ou devoluto.

19/01/2016

Casa Nº541 da Rua de Santos Pousada

No ano em que este pequeno prédio para habitação foi erguido, em 1913, a Rua de Santos Pousada era designada por Rua de S. Jerónimo. E o proprietário responsável pela construção deste prédio foi Salvador Gonçalves Valentim, que contara com o apoio do mestre-de-obras José Maria de Barros, embora se presuma que o desenho seja do proprietário. Mais tarde Salvador Valentim torna-se arquitecto e passa a assinar projectos, sendo responsável por fazer várias alterações na sua casa ao longo dos anos seguintes.

A actividade de Salvador Gonçalves Valentim como arquitecto na cidade do Porto é conhecida e está bem referenciada devido ao seu projecto da magnífica Garagem que corresponde aos os Nºs 140 - 144 - 150 - 156 - 160 da Avenida de Camilo, com uma nítida influência Arte Nova severa da qual se destaca o curioso painel de azulejos no remate central da fachada. Mas como criativo, Salvador Gonçalves Valentim fez mais do projectar edíficios e, em 1929 ergue uma oficina de ourivesaria nesta mesma casa. 

Actualmente o pequeno prédio encontra-se à venda, mas apresenta um estado calamitoso, agravado pela ausência parcial de paineis de azulejos, portas e portadas de janelas degradadas e parte da fachada ocupada por vegetação.

15/01/2016

Moradia Nº32 e 36 na Rua de Brás Cubas

Actualmente, a Rua de Brás Cubas é uma das artérias que mais passam despercebidas entre as várias ligações possíveis à Avenida de Fernão de Magalhães e poucos também se apercebem que Brás Cubas é o nome de um fidalgo português nascido em 1507 que fez algumas explorações por sua conta no Brasil, tendo mesmo fundado algumas povoações. Curiosamente, esta rua nem sempre teve o nome deste explorador português do séc. XVI, tendo sido antes, na sua origem e durante uns anos, conhecida por Rua Particular à Avenida Fernão de Magalhães (indicando o seu carácter privado).

Mas o que mais nos chama a atenção nesta rua estreita é história por detrás de uma moradia devoluta – aliás, não deixaremos de frisar que por detrás de cada bem patrimonial esquecido, abandonado, devoluto ou já em fase de ruínas existe sempre uma história por contar. Pois os imóveis do Porto são assim: sempre recheados de história. Esta casa que descrevemos corresponde aos números 32 e 36 e o seu projecto data de 1933, tendo sido erguida entre os finais desse ano e 1934. Não nos parece errado afirmar que está patente uma nítida influência Art Deco – recebeu uma influência severa, mas nítida a partir do corpo central da fachada e dos frisos superiores com uma estilização muito própria da época.

O proprietário que mandou erguer este imóvel chamava-se António de Sousa Ramos e fê-lo com o objectivo de o dividir em duas habitações para dois diferentes moradores. Tudo indica que fê-lo com o propósito de arrendar. O seu arquitecto foi Mário Abreu, um dos arquitectos mais activos do Porto que, em colaboração com Mário Augusto Ferreira de Abreu, durante os anos 30 e inícios dos anos 40 do século XX foi responsável por nos ter legado muitas obras privadas digno de interesse. 

29/08/2014

Casas Nº26 e Nº29 da Praça da República

Na Praça da República subsistem duas casas centenárias lado a lado que pouco têm em comum senão o seu estado devoluto e se situarem junto da mesma praça. Correspondem ao Nº26 e Nº29, respectivamente.

A Habitação Nº26, tipo prédio, é bastante antiga e já habitada desde o século XIX (ou talvez antes desse mesmo período). Bastante típica entre as casas ditas “clássicas” do Porto, tem uma fachada estreita rasgada por janelas rectangulares com gradeamentos em todos os pisos, com a excepção do rés-do-chão, com três entradas que estão actualmente emparedadas. Destaca-se por ter uma chaminé central. Contando com diversas intervenções, consoante os proprietários que se sucederam, ganhou um novo andar no ano 1895 por vontade do residente Joaquim Simões Silveira. Em 1911 voltou a ser intervencionada pelo proprietário Albano Ramos Pais, talvez para se adaptar e conjugar com o gosto mais aperfeiçoado da casa vizinha, a Nº29, que foi construída nesse mesmo ano.

De fachada elaborada e distinta, com ricos trabalhos em cantaria, só se compara à habitação vizinha por ter uma fachada igualmente estreita. O seu proprietário era o mestre pedreiro António Faria Moreira Ramalhão (1896 – 1936) que a desenhou em 1910 para vê-la erguida no ano seguinte. Fez o trabalho simultâneo de arquitecto, técnico e mestre de obras. É constituída por quatro pisos e ainda por uma arrecadação (que não é visível do lado da Praça da República). Não podemos deixar de apreciá-la devido às suas linhas mais elegantes, com janelas e portas de arcos redondos e pelas suas varandas centrais, principalmente a do terceiro piso, curva, que ainda mantém o seu gradeamento original. Nesta casa podemos apreciar algum eclectismo de influência francesa em conjugação com detalhes da Arte Nova. Arquitecto e sobretudo notável Mestre Pedreiro, como atesta a fachada do Nº29, António Faria Moreira Ramalhão é pouco conhecido e a sua obra na cidade do Porto também passa despercebida (embora podemos encontrar o seu traço nalgumas fachadas em granito de várias habitações do início do séc. XX); esperemos que esta sua bela casa também não caia no esquecimento.

28/08/2014

Sede do Banco Pinto Magalhães

Na esquina da Rua Sá da Bandeira com a Rua de Sampaio Bruno localiza-se este prédio envidraçado que já foi definido por cidadãos como mais um "mamarracho", devido ao forte contraste que causa com os característicos edíficios do centro histórico do Porto. Onde hoje se situa este prédio existiu uma fonte em granito que era bem conhecida ainda na segunda metade do século XX. Hoje a Rua de Sampaio Bruno é pedonal e na esquina já não existe prédios típicos ou a fonte, mas sim um edíficio vazio e sem a menor função. 

A sede do Banco Pinto Magalhães é o exemplo de uma arquitectura moderna, à qual podemos reconhecer a influência dos traços de Mies Van Der Rohe (1886 - 1969), cujas teorias influenciaram e ainda continuam a influenciar toda uma geração de arquitectos, incluíndo certamente Fernando Silva (1914 - 1983), que projectou este prédio em 1962 seguindo as linhas racionais que podemos encontrar em muitas obras do famoso arquitecto alemão. O slogan «Menos é Mais» reencontra eco nesta obra, funcionalista, com o mínimo de elementos decorativos possíveis, procurando o seu valor expressivo apenas no contraste das fachadas em vidro com as lajes de granito polido que revestem toda uma fachada de canto.


O edíficio não se manteve em funções como sede do Banco Pinto Magalhães durante muitos anos. Após o 25 de Abril de 1974 o banco foi nacionalizado, voltou a ser reprivatizado e a história de como a riqueza e o legado empresarial de Pinto Magalhães (SONAE) acabou nas mãos de outro responsável ou como foram feitos esforços para causar a falência do seu banco em 1972 é uma história algo sombria que aqui não nos atrevemos a descortinar. 

Certo é que o Banco Pinto Magalhães já não existe. O que dele restou foram outros edíficios vazios e reocupados com novas funções; mas a sua sede permanece ao abandono e todos ignoram se vai continuar a permanecer assim durante mais décadas.

26/08/2014

Prédio Nº20 Rua de Álvares Cabral


Recentemente acusamos o estado de abandono de uma moradia projectada pelo arquitecto Júlio de Brito na Rua de Sacadura Cabral; agora acusamos o estado de desprezo de um prédio de outro conhecido arquitecto cuja actividade também marcou a cidade do Porto durante o período do Estado Novo: Trata-se do prédio Nº20 da Rua de Álvares Cabral, projectado por Rogério de Azevedo (1898 – 1989), responsável por obras modernistas com as linhas rígidas do Português Suave como a Garagem do Comércio do Porto (1930 – 32) na Praça Filipa de Lencastre, a Maternidade Júlio Dinis (1938) em coautoria com outros arquitectos, o Prédio Maurício-Rialto (1942) na Praça D. João I e o Hotel Infante Sagres (1945).

O arquitecto Rogério de Azevedo desenhou este prédio em 1930 para os dois irmãos Álvaro Ferreira Alves e Eurico Ferreira Alves, acabando por ser erguido em 1931, com o apoio do engenheiro Henrique Santos Peres Guimarães. A entrada principal fazia-se através de um portão, o Nº20, que actualmente é flanqueado por outros dois. Deveria servir de habitação colectiva para arrendamento e inicialmente chegou a ter um consultório no rés-do-chão.


Destaca-se pelo contraste de materiais como o reboco e a cantaria e pela sobriedade e simplicidade, de inspiração Art Deco. É uma linguagem comum de muitos edifícios da época, que chegaram a servir propósitos tão similares. O motivo pelo qual este acabou abandonado, e com marcas óbvias de degradação, escapa-nos; mas se a Câmara Municipal desejasse reabilitar algum prédio antigo perto do centro da cidade com o intuito de arrendamento social, este poderia ser um dos melhores exemplos, devolvendo-lhe a sua função original e protegendo em simultâneo a obra de um arquitecto com um legado marcante.

08/04/2014

Edifício da Ourivesaria do Bolhão


Não pensamos em dar-lhe outra designação senão o edifício da «Ourivesaria do Bolhão», como foi tão conhecida durante décadas aquela esquina com o seu magnífico relógio de metal, de vitrines viradas para a Rua Formosa e a Rua Sá da Bandeira.

O edifício em questão começou a ser construído em 1916, por vontade do proprietário António da Cunha Tamegão e a sua arquitectura caracteriza-se por aquilo tantas vezes definido na cidade do Porto de Arte Nova Tardia, principalmente a nível das varandas e outros gradeamentos em ferro e dos azulejos com elementos vegetalistas, mas com características que ainda reconhecemos em edifícações mais antigas e com alguns mais modernos, ao qual não nos parece injusto designar o imóvel como portador de um eclectismo mais sóbrio. 

Originalmente, o edifício tinha uma planta triangular, mas sofreu várias alterações, com o passar dos anos, sendo os mais marcantes a partir dos anos 20. O primeiro proprietário já havia exigido o levantamento de mais um andar, e Maria Estela de Azevedo P. Spratley, proprietária nos anos 20, também foi responsável por acrescentar mais. O que mais marcou este edifício foi a fundação da primeira ourivesaria - a Ourivesaria Jaime Gomes da Costa e Filhos -que já desde essa mesma altura se instala numa das áreas do edifício que mais tarde dará origem à Ourivesaria do Bolhão.


Foi assim que o conhecemos e talvez seja assim pelo qual os cidadãos do Porto ainda se lembrarão deste imóvel. Este era o local da Ourivesaria do Bolhão. Também acomodou nos pisos superiores a famosa "Casa Forte", um dos locais de comércio mais distintos da cidade, octogenária, onde se vendiam os mais diversos artigos relacionados com vestuário, calçado e material desportivo, que fechou abruptamente em 2004. Os sinais de abandono do prédio eram visíveis em contraste com a ourivesaria resistente. As entradas das montras (e outras) emparedadas representam um sinal de tristeza na Rua Sá da Bandeira - juntamente com outros edifícios vizinhos. Mas a derradeira tristeza para os que muito lamentam os sinais de desertificação no centro histórico do Porto foi quando no final de 2013 se fechou a dita ourivesaria.

Há um relato rude e crítico da forma como foi anunciado o fecho da Ourivesaria do Bolhão: comerciantes e transeuntes assistiram impávidos ao grosseiro derrube do antigo relógio que ficava na esquina; preferiram derrubá-lo e destruí-lo à martelada, na rua, como se não fosse um pequeno pedaço de história elaborado mas um antes um artefacto incómodo e sem valor pronto a ir para o lixo, como acabam muitos bens aos quais nem sempre reconhecemos como elementos dignos de ser preservados...

Os últimos dados que tinhamos davam conta que o edíficio pertencia à Invesprédio, do grupo Bragaparques, que pretendia reabilitá-lo para acomodar lojas de luxo. Até hoje continua a ser mais um edíficio histórico vazio e desprezado, à espera de melhores dias.



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