05/05/2016

Largo do Moinho de Vento



O topónimo deste velho largo corresponde à ideia de que aqui se localizava uma área rural onde se pressupõe que terá existido realmente um moinho de vento (no Largo ou nas imediações, por onde passava o antigo caminho com o mesmo nome). É provável que, tendo mesmo existido, esse moinho terá sobrevivido até meados do século XIX, data da configuração do principal edifício que ali se encontra – embora haja quem aponte as suas origens para o século XVIII.

O edifício de dois pisos que domina o largo (três, se contarmos com a pequena ampliação no piso superior), rasgados por uma série de janelas e portas numa disposição simétrica na fachada principal, onde se destacam os azulejos azuis, parece realmente corresponder a um velho solar uma quinta que existiria no local. Mas faltam-nos dados suficientes para saber essa é realmente a sua origem, mesmo sabendo que foi intervencionado e alterado com o passar dos anos, adquirindo uma disposição mais “urbana”. Sabemos que um proprietário que ali residia em 1876 optou por residir uma porta e janela no Nº4, mas ignoramos se era proprietário de todo o imóvel ou se na época já havia sido dividido num conjunto de várias habitações (entre duas a quatro).

Posteriormente, nos anos 20 do século XX são referidas as intervenções de dois diferentes proprietários que se sucederam. Todas as intervenções se referem ao Nº1 e dão-nos conta do seguinte: que José Ribeiro da Silva Pena terá reparado uma empena em 1922 e que Maia e Garcia mandou terraplanar o pavimento, colocar azulejos, caiar e pintar (os interiores, certamente) e alterar profundamente a fachada em 1923, confiando o projecto ao mestre-de-obras António Alves da Silva – é bem provável que devesse ser o (único) proprietário de todo o imóvel, embora só haja uma referência ao Nº1 e não aos restantes, pelo que os dados existentes nos causem várias dúvidas.

Pior que não saber mais sobre a sua história (do edifício e do próprio largo) é ver algo do género com uma aparência que deixa muito a desejar. O edifício, degradado e vandalizado, tem as suas entradas emparedadas; o Largo propriamente dito, que terá sofrido uma intervenção em tempos recentes, embora revele alguma preocupação em ter bancos e árvores, também deveria sofrer uma alteração mais gratificante – que ninguém julgue que é saudável tamanha disposição de locais para se sentar tão próximos de caixotes de lixo (porque não estou devidamente isolados por um muro ou a um diferente nível de pavimento?), revelando a falta de enquadramento adequado, pois entre um edifício degradado e tamanhos equipamentos, o mau aspecto e os cheiros desagradáveis causam um notável desconforto para qualquer transeunte que por ali passe. 

03/05/2016

Antigo Hotel do Louvre



Este antigo hotel localiza-se no gaveto de uma importante avenida por onde passam imensos turistas em direcção ao Museu Soares dos Reis e aos jardins do Palácio de Cristal, foi palco de um dos mais caricatos episódios históricos da nossa cidade, veio posteriormente a servir de sede a diferentes instituições de destaque ao longo de todo o século XX, e no entanto está degradado e grande parte do edifício permanece sem utilidade há vários anos.

Construído em 1863, a arquitectura do edifício acusa um eclecticismo muito próprio da época, que vai procurar a sua inspiração no neo-almadino em conjugação com as características de alguns prédios da época, incorporando varandas com elegantes gradeamentos em ferro no segundo piso (actualmente enferrujados e em risco de se perderem). É portanto um edifício muito sóbrio. Pertenceu a Gaspar Joaquim Borges de Castro, sogro do segundo conde de S. João da Pesqueira, que ali residiu e mais tarde veio encomendar diversas ampliações – principalmente em 1875, tendo coberto o seu terraço. Já nessa altura era um hotel de luxo, gerido por Maria Huguette de Melo Lemos e Alves (sua amante?), que fez dele o luxuoso Hotel do Louvre. É bem conhecida a hospedagem do imperador D. Pedro II do Brasil em 1872, que se recusou a pagar a estadia. Maria Huguette de Melo levou o caso a tribunal e chegou mesmo a viajar ao Brasil para exigir o pagamento, que foi na realidade efectuado por amigos do imperador.


Mais tarde, em 1885, foi inaugurada neste edifício a Casa de Saúde do Dr. António Bernardino de Almeida (uma das primeiras clínicas particulares da cidade do Porto). Mais tarde ainda esteve aqui também sediados o Orfeão Lusitano entre 1927 e 1930, o Sport Comércio e Salgueiros nos anos 30, o Cineclube do Porto fundado em 1945 e o Movimento Unidade Democrática (MUD) entre 1947 e 1948, até à sua expulsão pela PIDE. No final do século XX veio a ser ocupado pela Escola de Condução “A Desportiva”, que ali permaneceu até meados do início do século XXI, na altura da construção do Túnel de Ceuta. As marcas das letras e os seus autocolantes nas janelas ainda permanecem, apesar da entrada principal, de acesso ao piso superior, estar entaipada.


Cinema Batalha



Não deve existir na cidade do Porto um edifício que exprima com tamanha elegância o cruzamento entre as linhas da arquitectura Art Deco com o autêntico Modernismo e um toque mais ténue do Português Suave (acusado por um painel em relevo exterior e noutros detalhes). Classificado como Monumento de Interesse Público desde 2012 quase admira que se encontre subaproveitado e careça de um projecto que o reanime e trave a sua degradação (quase, porque se tratando de Portugal casos do género não surpreendem – ou a burocracia para intervencionar num imóvel classificado continua a ser demasiado restrita e difícil de ultrapassar, ou não se sabe bem o que se fazer quando não se dispõe de muito dinheiro para intervir, ou teme-se inovar, ou o poder local manifesta o seu desinteresse ou completa falta de visão).

Arrojado e inovador para a época, o Cinema Batalha foi projectado pelo arquitecto Artur Andrade em 1944 para substituir a sala de projecção de cinema High Life de 1908 (certamente muito influenciada pelo espírito da Bélle Époque que introduziu no Porto as linhas da Art Nouveau). De planta trapezoidal e com quatro pisos (um ocupando o espaço da cave) este imóvel dispõe de dois auditórios e espaço para bares e restaurante, tendo vindo a integrar elementos notáveis de pintura e escultura. Inaugurado em 1947, funcionou durante décadas como um dos principais cinemas do Porto, até que a construção dos novos shoppings nos finais do século XX retirou espectadores para novas salas de cinema que deixaram os antigos, como este, em risco de encerrar de forma definitiva. O Cinema Batalha fechou, pois claro, embora posteriormente o Gabinete Comércio Vivo (uma parceria entre a Associação dos Comerciantes e a Câmara) exploraram um dos seus bares e espaço de restauração, bem como a maior sala de espectáculos para eventos diversos. Mas em 2010 voltou às mãos da empresa Neves & Pascaud, que o mantém aberto e procura dele fazer uso da forma que lhe é possível.

Talvez o problema actual do Cinema Batalha não seja a falta de empenho da Neves & Pascaud ou da Câmara para do imóvel fazer algo mais, nem deve ser a sua classificação enquanto monumento que restrinja amplas intervenções no edifício para que o torne viável do ponto de vista de quem nele pretenda investir. Talvez o problema seja admitir que para recuperá-lo e torná-lo novamente atractivo o poder local e a empresa proprietária tenham de apostar conjuntamente numa intervenção que engloba o estudo e o trabalho de uma equipa multidisciplinar e uma colaboração com outras entidades (na mesma linha em que terá funcionado o Gabinete Comércio Vivo) – poderá ser algo exigente, mas não é impossível.

Quando se pensou em construir a Casa de Cinema Manoel de Oliveira foi um erro não se ter pensado neste magnífico espaço cultural do Cinema Batalha, que era bem mais adequado do que o edifício caro de Souto Moura que permaneceu fechado durante tantos anos num local afastado do centro. O mesmo se poderia dizer da nova Casa da Música projectada para a Porto 2001 – porque construir algo que custou tanto e veio a ser inaugurado tardiamente quando o Cinema Batalha, se fosse devidamente reaproveitado, dispunha na altura de um auditório promissor? E se falamos de música, porque não poderia servir também de sede para o Orfeão do Porto? Curiosamente, numa cidade que se tornou recentemente aberta à cultura, há excepção de algumas associações e iniciativas privadas, o poder local nunca pondereu ter um espaço magnífico e mais convidativo para a projecção de cinema alternativo ou independente – mesmo tendo em conta algumas restrições, porque não o Cinema Batalha?

Outras ideias e projectos para o Cinema Batalha poderiam ser equacionados e conjugados, pois uma coisa certa: independentemente do que se pense ou não em fazer, tendo em conta as vontades das diversas entidades que aqui mencionamos, não convém é que se desista de recuperá-lo e dar-lhe nova vida; permitir que se continue a degradar poderá sair bem mais caro do que um projecto arriscado para reaproveitá-lo.

29/04/2016

Cavalete do Poço de S. Vicente

Integrando o antigo complexo mineiro de S. Pedro da Cova e classificada como Monumento de Interesse Público, a estrutura não escapa aos olhos dos curiosos que visitam esta freguesia de Gondomar com características únicas.

Dispondo de seis andares, a torre-cavalete de betão armado foi projectada em 1934 e terminada em 1936 para substituir a antiga estrutura de madeira que explorava o Poço de S. Vicente, que se tornou o principal poço de extracção de carvão durante os anos 30. Ao todo teria treze pisos e na torre (de seis pisos à superfície) funcionavam as roldanas que puxavam o elevador. Tendo deixado de funcionar durante os anos 70 do século XX, permaneceu abandonado e foi-se degradando com o passar dos anos. De certa forma emblemático e valorizado pela população local, moveram-se esforços para que fosse classificado (tal veio a acontecer em 2010) e com essa intenção fosse reabilitado e protegido – tal se deve sobretudo ao Movimento Cívico em Defesa do Património Histórico-Cultural de S. Pedro da Cova.

Mas mesmo com este património agora valorizado espanta que o Cavalete do Poço de S. Vicente ainda se encontre em risco. O risco é de tal ordem que necessita de uma reabilitação urgente – caso contrário, segundo os especialistas da FEUP que conduziram recentemente um estudo para conservação desta estrutura, se nada se fizer a curto prazo, a sua degradação irreversível levará à perda de um bem que a freguesia só poderá recuperar futuramente se a reconstruirem. 

Ver também:


As Ruínas do Complexo Mineiro de S. Pedro da Cova



S. Pedro da Cova é, tal como muitos outras freguesias e territórios da Área Metropolitana do Porto, um completo diamante em bruto no qual ainda há muito a trabalhar para que futuramente se torne muito mais atractivo. Com uma actividade industrial visível, a cultura local é indissociável das velhas minas de antracite (carvão) que funcionaram desde os finais do século XVIII até aos anos 70 do século XX e das serras verdes que as separam de Valongo; tirando proveito destas duas características importantes, já se deram os primeiros passos para uma valorização substancial da freguesia com a criação do Museu Mineiro e o começo da constituição de um importante parque natural que, sendo bem gerido e devidamente reflorestado com espécies autóctones (não com a manutenção da praga de eucaliptos) prometerá causar um impacto ambiental muito positivo para o território, sem esquecer o potencial dos campos e das áreas de cultivo locais, já que S. Pedro da Cova ainda está marcado por uma ampla ruralidade.

No entanto, no muito que ainda há por fazer, admira que não sejam previstas tomadas de melhores atitudes em relação às ruínas e o conjunto de edifícios devolutos que ainda permanecem num território onde outrora laboraram activamente milhares de homens (e mulheres!) em condições extremamente duras. O desolado complexo, parcialmente ocupado por mato, está nos dias, de hoje tão silencioso quanto perigoso – quem se aventura pelo local corre sérios riscos, seja por causa do terreno incerto, seja por causa das estruturas e restos de edifícios que podem desabar a qualquer momento (nem sequer existe uma vedação ou avisos de PERIGO, impedindo crianças ou os mais incautos de ali se aproximarem).


Entre as ruínas, o que mais salta à vista é o Cavalete do Poço de S. Vicente (por onde descia um elevador de acesso às minas), uma estrutura de betão armado em forma de torre dos anos 30 do século XX. A curta distância encontra-se o que resta do antigo edifício da Lavaria (onde se procedia à lavagem do carvão), que de tão devastado que está corre a qualquer momento o risco de cair. Bem próximos localizavam-se também a Casa das Máquinas e outros edifícios de apoio, que serviam para armazenagem de vários bens, incluindo ferramentas e as famosas “zorras” que serviam para transporte de matéria-prima. O complexo incluía ainda uma cooperativa, a casa da direcção, farmácia, escola, capela, balneários, casas de lavoura e residência para trabalhadores. Outrora existia o Cabo Eléctrico que fazia a ligação por via aérea entre as minas e os depósitos na cidade do Porto, que foi desmantelado nos anos 70, após o encerramento do local, que permanece abandonado desde então.




Os antigos mineiros e grande maioria de outros colaboradores que trabalharam diariamente no complexo não são boas devido às condições desumanas a que estiveram sujeitas, mas a ideia de que todo este património permaneça abandonado, por piores que sejam as suas memórias, também lhes causa um amplo desagrado, apesar da existência do Museu Mineiro que ocupou a antiga Casa da Malta, a residência para trabalhadores oriundos de outras zonas do país. Para bem e para mal, as minas fazem parte da sua história… e da história do seu território.

27/04/2016

Casa de António Nobre e Prédio Art Nouveau



Entre os exemplos típicos de casas ou de prédios lado-a-lado degradados da cidade do Porto temos estes dois notáveis imóveis na Foz (Nºs 531 e 523, respectivamente), na Avenida Brasil, que se distinguem por dois motivos distintos: um é a casa onde residiu e veio a falecer o poeta António Nobre e o outro é um prédio elegante com uma morfologia e elementos Arte Nova (atendendo que a arquitectura Art Nouveau no nosso território é rara e muito presa a características tradicionais, este prédio revela ser bem interessante).

A casa onde veio a falecer António Nobre (1867 – 1900) permite esclarecer um detalhe no que toca ao património edificado, que é o facto de que uma casa que não revele características únicas ou dada relevância em termos de tendências da arquitectura, não deixa de ser valiosa devido à sua importância cultural e histórica. Curiosamente, a par de algumas outras casas onde vieram a residir escritores do Porto, nunca foi classificada e a Câmara Municipal não demonstra o menor interesse ou a intenção de fazê-lo – ou seja, tem demonstrado abertura para a cultura só para algumas coisas, para outras nem por isso.

Não conseguimos descobrir as origens do Nº531, onde veio a residir o poeta que felizmente ainda é relembrado por muitos, mesmo sabendo sem sombra de dúvida, de que se trata de uma casa da segunda metade do século XIX (mesmo pequena e simples, quantos não a desejariam, no local onde se encontra?). No entanto, obtemos mais informação sobre o prédio Nº523, que foi construído entre 1911 – 1912, após a demolição da casa possivelmente contemporânea da de António Nobre que a antecedeu. De fachada elaborada e de contornos elegantes, com painéis de azulejos de motivos florais dignos de apreciação, teve como proprietário António Rodrigues Cardoso e o seu mestre-de-obras foi o experiente Manuel Ferreira da Silva Janeira, residente na Foz e certamente bem conhecido na área.

O Nº523, tratando-se de uma verdadeira moradia situada num local invejável, virada para o mar, também exibe os sinais de estar desabitada há anos e não tem o gradeamento original da varanda central (que deveria ser sinuoso os restantes), mas continua bem caiada de branco e mantém de tal modo a sua beleza que nos custa acreditar que até ao momento, mesmo sendo o seu preço elevado, que não tenham surgido muitos interessados em adquiri-la.


26/04/2016

Escola Primária do Passeio Alegre



Já há mais de dez anos que o desaproveitamento desta antiga escola primária do início do século XX junto ao Passeio Alegre, na Foz do Douro, causa pena a antigos alunos e moradores próximos que a apreciam devido ao seu valor histórico e arquitectónico. Causa pena porque apesar de um dado conjunto de intenções demonstrado por diferentes executivos que passaram pela Câmara Municipal do Porto e pela Junta de Freguesia local o elegante edifício permanece abandonado.

Erguido em betão, de influência Arte Nova e com um toque claramente classicista acusado pela colunata dórica, relembra a arquitectura do antigo Matadouro Industrial (será possível atribuí-la ao mesmo ao mesmo autor que o projectou?) que, embora sendo em menor escala e obedencendo a uma planta mais estreita, parece igualmente obedecer a um plano basilical. Começou por ser um jardim-de-infância (escola infantil) já planeado em 1914, erguido a partir do ano seguinte para ser inaugurado em 1916, funcionando como colónia senatorial marítima durante os meses de Verão. Com a implantação do Estado Novo tornar-se-á a Escola Primária Nº85 – escola primária masculina (!) – e continuou a funcionar como tal até meados dos anos 90 do século XX.

Encerrada e sem utilidade, fez-se um levantamento em 1999 para aqui se instalar um Museu Vivo da Escola Primária, prevendo-se alterar e ampliar o edifício para tal (o que nos parece ridículo), mas foi um plano que não saiu do papel. Mais tarde, em 2004, previa-se a mudança da Junta de Freguesia da Foz do Douro para este edifício, mas foi mais um projecto que permaneceu na gaveta. Mais recentemente, em 2014, o actual presidente da câmara deu a conhecer a intenção de envolver esta antiga escola num projecto de total requalificação da área do Passeio Alegre, transformando-a numa «club house» dos campos de ténis que por enquanto se encontram adossados à velha Fortaleza de S. João Baptista e que deverão ser retirados e reerguidos junto à escola, mas ignoramos se esse plano virá ainda a concretizar-se.

(A Recuperação da) Fortaleza de S. João Baptista



A Fortaleza de S. João Baptista, na Foz do Douro, é um dos monumentos defensivos mais interessantes do nosso território, não só devido à sua localização privilegiada e à área compreendida, com um potencial enorme, mas devido ao seu enquadramento histórico e arquitetónico. Não sendo fácil ignorá-la, não será de admirar que a Câmara Municipal do Porto revele todo o interesse em recuperá-la (admira é que não manifeste o mesmo interesse em relação a outros monumentos de um valor patrimonial igualmente considerável, mas tendo em comparação com as últimas décadas, pelo menos evoluiu muito mais nesse sentido).

Sendo justos, na realidade o edifício que hoje vemos resulta da conjunção de dois monumentos distintos que serviram propósitos igualmente distintos: é simultaneamente religioso por enquadrar um espaço conventual beneditino com igreja (que hoje está em ruínas) e militar por englobar um conjunto de baluartes – no seu conjunto revelam parte do melhor da arquitectura portuguesa do século XVI, progressista a nível de introdução dos modelos classicistas da Renascença e progressista por ser a primeira fortaleza do território que quebrava em absoluto com os então obsoletos meios defensivos medievais para acomodar peças de artilharia. Foi a regente Dona Catarina, mãe de D. Sebastião, quem ordenou a sua construção (apesar dos protestos dos frades beneditinos aqui já estabelecidos desde o séc. XIII, vindo a perder o seu convento para a sua completa transformação e adaptação a fortaleza).

A fortaleza viria a ser sucessivamente alterada ao longo dos séculos seguintes, com melhoramentos e a inclusão de novas canhoeiras adaptadas a proteger a entrada do Douro, mas a capela-mor da igreja conventual, com a sua cúpula sextavada, sempre se manteve. No século XIX desapareceram o fosso e a ponte levadiça da fortaleza, assim como uma boa parte dos rochedos que a rodeavam, afastando-a do contacto com a foz do rio.

Actualmente, o seu estado e desaproveitamento indigna-nos. Uma igreja
renascentista em ruínas, canhões enferrujados expostos aos elementos, áreas completamente degradadas e uma manutenção básica ou muito fraca comprovam que o Estado português não sabe estimar o seu património. Sendo um local que há muito poderia ter servido de pousada ou espaço museológico (ainda não se sabe exactamente do que é feito do espólio do antigo Museu Etnográfico do Porto), se bem que não desagrada a ninguém enquanto espaço cultural aberto à literatura, música e exposições de pintura ou escultura (só precisando de maior promoção e estima), até como discoteca, a exemplo de outras fortalezas do género, serviria um melhor propósito do que algo votado à ruína.

O novo protocolo assinado entre a Câmara Municipal do Porto e o Ministério da Defesa pelo menos esclarece-nos de que realmente é possível diferentes identidades trabalharem em conjunto para reabilitar e cuidar de um monumento (ao contrário de muitas antigas desculpas que atiravam responsabilidades para cima de uns ou de outros para não se fazer absolutamente nada). Mesmo cientes de que não há dinheiro ou recursos para tudo, esperemos mesmo assim que este exemplo seja o quanto antes replicado em casos tão ou mais flagrantes… 

22/04/2016

A Reabilitação do Matadouro Industrial de Campanhã



Referenciado durante demasiado tempo como um dos monumentos mais mal-aproveitados do Porto e com sinais de degradação elevados, o futuro do antigo Matadouro Industrial de Campanhã nem sempre pareceu promissor. Faltaram ideias, faltaram vontades, faltou mais acção e fortes tomadas de medidas no sentido de valorizar um complexo com um potencial enorme cuja utilidade poderia ter tido um melhor impacto na freguesia mais oriental da cidade do Porto.

A par do Mercado do Bolhão, tratando-se igualmente de um monumento municipal e emblemático, a sua reabilitação era mais que desejada há bem mais do que uma década, sabendo-se que adiá-la só se traduziria num preço cada vez mais elevado com o passar dos tempos. Felizmente, talvez porque pela primeira vez em muitos anos a câmara municipal do Porto parece ter um presidente inteligente ou com maior visão do que muitos (somos forçados a admiti-lo), o notável edifício do início do século XX vai ganhar uma nova vida e a sua reabilitação vai-se afirmar como um dos projectos mais importantes da cidade do início do século XXI.



Apresentando-se orgulhosamente o projecto em Milão, contando com a parceria entre a CMP e a ESAD (pela primeira vez em muitos anos o poder local começa a reconhecer o valor dos designers no que toca a projectos interiores, urbanos ou para equipamento), realça-se a sua importância em termos de adaptação de um antigo edifício a um propósito cultural e económico: contará com um museu industrial, galerias para exposições, áreas reservadas a empresas criativas, espaços sociais e de lazer, além de zonas ajardinadas.

Mais que um ambicioso projecto, com ligação directa ao metro e mais próxima à zona do Estádio do Dragão, trata-se de fazer o que é justo e adequado. 


Fonte:




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