18/04/2016

Jardim do Morro em Vila Nova de Gaia será Reabilitado



A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia irá investir meio milhão de euros na reabilitação do jardim junto à serra do Pilar, criando ainda um anfiteatro ao ar livre para fins culturais.

O jardim já existe desde 1927, faz parte da área de protecção do interessante Mosteiro da Serra do Pilar e a intenção de reabilitar este espaço próximo à Ponte Luís já é antiga. Através de um estudo elaborado pelos arquitectos Francisco Saraiva e Nuno Oliveira e o arquitecto paisagista Nuno Cunha Gomes, as obras de requalificação serão para arrancar no final da Primavera e deverão terminar num prazo de quatro meses. Contará com papeleiras, bancos e novas estruturas de saneamento, prevendo-se ainda a criação de um espaço infantil e a recuperação do lago, da gruta e ainda da estátua de Diogo Cassels, fundador da Escola do Torne. No fundo, será recuperar um desenho original do horticultor Alfredo Moreira da Silva e do capitão de engenharia João Oliveira Pombeiro.

Uma notícia que comprova a importância que as câmaras municipais do nosso território estão a dar à Reabilitação Urbana e à renovação dos espaços verdes como uma mais-valia para promoção e desenvolvimento das cidades, tornando-as mais convidativas. 

Fonte:



Fábrica CUF do Freixo



Se na actualidade temos muitos motivos para lamentar o fecho e desmantelamento de muitas unidades fabris espalhadas pela Área Metropolitana do Porto que eram responsáveis pela permanência de milhares de emprego e linhas de produção emblemáticas e distintas que eram motivo de orgulho da região também lamentamos que as escolhas da sua localização e o impacto ambiental não tivessem sido as melhores. Por isso é que mete alguma pena que os terrenos da ampla e verdejante propriedade da Quinta do Freixo tivessem sido ocupadas por unidades fabris durante o século XIX que também contribuíram muito para danificar a nobre casa projectada por Nasoni e descaracterizar a paisagem que hoje pode ser uma mais-valia no aproveitamento de uma boa área da freguesia de Campanhã como exclusiva zona de campo, pensada para o turismo e lazer.

Mas se será difícil um dia interligar a Quinta do Freixo com o Parque Oriental bem próximo, estabelecendo roteiros com outras quintas e caminhos de bosques com trajectos aprazíveis seguros (esta idealização fantástica envolveria decerto uma ampla transformação urbanística e paisagística que actualmente não é possível), pelo menos as instalações fabris construídas nas imediações sempre podem servir um propósito mais apelativo e integrar-se coerentemente com o melhor que a Pousada do Porto possibilitou na zona oriental da cidade em termos de urbanismo.



Lamentavelmente, mesmo que a reabilitação do Palácio do Freixo e a Fábrica de Moagens Harmonia se apresenta como algo de magnífico, constatamos que as áreas que a rodeiam estão mal aproveitadas e ainda temos conjuntos de ruínas fabris bem próximas que dão a sensação que a Pousada do Freixo é uma ilha de distinção numa área urbana parcialmente votada ao desprezo e ao abandono, não permitindo sequer que a Marina do Freixo e o Museu da Impressa façam ampla diferença (com acessos rudes que deixam um tanto a desejar). E o caso mais próximo, quase adossado à Pousada e encarado pelos turistas que passeiam junto à margem do Douro com pasmo, é a parte correspondente à Fábrica CUF do Freixo, próxima à fronteira com Valbom (Gondomar).

Esta fábrica foi construída em 1888 pela firma Monteiro Santos & Companhia para produção de sabão e velas de estearina, destacando-se deste período de tempo a chaminé de Lino Soares Guedes. Mais tarde, em 1890, foi vendida à Companhia Fabril Douro, que manteve o fabrico de velas. Quatro anos depois é adquirida pela Companhia Alliança Fabril (CAF) que não mantém apenas a produção de estearina como reinicia a produção de sabão, optando por desactivar a fábrica entre 1896/97 para expandir as suas instalações em Lisboa. Em 1902 a Companhia União Fabril (CUF) toma posse da fábrica, reactivando-a em 1911 após uma série de obras e alterações profundas para produzir sabão e óleos vegetais.




Se em 1912 se verificam alguns problemas com a produção de sabão, depressa acabam por ser ultrapassados e a partir desse ano verifica-se um aumento positivo da produção justificando o sucessivo investimento em infraestruturas que são vão verificar ao longo das décadas seguintes, mas as remodelações mais significativas vão-se verificar a partir dos anos 60 do século XX. Um contrato de exploração é firmado entre a CUF e a Floral – Sociedade de Perfumarias e Produtos Químicos em 1967 e em sociedade exploram as instalações fabris do Freixo, pelo que não é por acaso que ainda hoje reconhecemos os logotipos da CUF e da Floral nas ruínas da fábrica. Durante os anos 80 a Floral propõe-se a adquirir a fábrica e a compra é efectuada em 1989 à CUF. Infelizmente, passados poucos anos a fábrica voltou a ser desactivada e foi adquirida pela Câmara Municipal do Porto. Desde então, mesmo com as tabuletas a anunciar «Propriedade Privada» e tudo dando a entender que é utilizada como local de arrumações da Pousada do Porto (estaremos errados?), mantém-se seriamente degradada. 

Derrocadas

As notícias que dão conta de derrocadas em edifícios devolutos não são novas e só apontam para o perigo que representam devido ao estado em que estão. Não é incomum que pedaços de pedras ou de betão das paredes se soltem e ainda menos se se tratar de partes de telhados quando falamos de edifícios velhos que estão abandonados ou sem a mínima manutenção há mais de uma década.

A legislação portuguesa ainda falha em impedir que muitos imóveis das nossas cidades acabem no abandono e na consequente degradação – tanto mais que o mesmo se regista em muitos edifícios de valor histórico que estão classificados e que se encontram nas mãos do próprio Estado! Sendo a aposta na Reabilitação Urbana muito recente, também se questiona quando irão surgir projectos e iniciativas mais criativas para que novas derrocadas de edifícios devolutos não aconteçam ou que coloquem transeuntes em risco.

O caso recente da derrocada de uma parede de um prédio na Rua do Vilar, no Porto, por acaso não fez vítimas, mas causou estragos e levou a medidas de precaução. O caso ainda mais notório e recente de um antigo armazém que chegou a ser o Hard Club em Vila Nova de Gaia por acaso não também fez vítimas, mas causou estragos ainda piores, impedindo a circulação na marginal do Cais de Gaia (e levando provavelmente a outras medidas de precaução). Sérias medidas de contingência poderia ter impedido estes incidentes.

As últimas derrocadas de paredes e muros de edifícios devolutos são atribuídas à constante chuva que tem caído sobre o nosso território e prevê-se que continuem a ocorrer… Esperemos que entretanto as autoridades responsáveis decidam que há realmente alguma medida séria a tomar antes que aconteça o pior.

Fonte:

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2016-04-16-Derrocada-corta-transito-na-marginal-de-Gaia



13/04/2016

AVISO


Torre da Antiga Casa da Câmara/dos 24

Entre as obras mais polémicas que foram erguidas na cidade do Porto durante os anos que se sucederam à classificação do seu Centro Histórico pela UNESCO, talvez nenhuma se destaque mais do que a reconstrução da Casa-Torre da Antiga Câmara, também conhecida por Casa dos 24.

A velha torre foi erguida entre os finais do século XIV e inícios do século XV junto à primitiva muralha, reaproveitando possivelmente um dos seus cubelos originais e material construtivo disponibilizado pelo seu desmantelamento parcial, uma vez que perdera o seu propósito defensivo há muito, através da ampla expansão da cidade que ultrapassava o alto de Pena Ventosa e com a construção das Muralhas Fernandinas. Erguida em granito, coroada por ameias e de portas e janelas de arcos ogivais próprios da arquitectura gótica, não será difícil imaginar o requinte do seu interior no período medieval, com tapeçarias e peças de mobiliária magníficas. Aqui se reunia o antigo senado da câmara portuense e ficou popularmente conhecida por Casa dos 24 por aqui se reunirem os 24 representantes dos vários ofícios da cidade do Porto.

Com a mudança das reuniões da câmara para outros locais a partir de meados do século XVI, a Casa-Torre começou a servir outros propósitos, como o de cadeia e de asilo, o que não impediu que se degradasse e a ameaçar ruína.

Manteve-se abandonado durante muito tempo e o que mais lamentamos é que mesmo com as sucessivas intervenções da DGEMN a partir dos anos 30 do século XX, responsável pela reabilitação dos troços que restaram das Muralhas Fernandinas e pela Casa-Torre mais próxima (aquando do alargamento do Terreiro da Sé nos anos 40) que esta antiga torre medieval não tivesse sido também reabilitada. Manteve-se em ruínas durante várias décadas e realmente surgiu um projecto para reconstruí-la… mas como entendemos que Reconstrução não é exactamente o mesmo que Reabilitação, realmente não poderíamos ser a favor da asneira que aqui se fez – porque é de uma asneira que aqui se trata, mesmo que muitos prefiram não reconhecer o óbvio.



A Casa-Torre foi reconstruída em 2002 segundo um projecto de Fernando Távora e desde então causa desagrado aos que reconhecem a incoerência de uma obra que nunca deveria ter sido erguida num centro histórico já classificado, quando a reabilitação da torre medieval, devolvendo-lhe a traça original e a sua identidade medieval, teria sido bem mais apelativa. Claro que há quem defenda esta obra – e ainda mais por se tratar de uma obra de um arquitecto conhecido –, mas quem o faz está a negar o valor acrescentado que seria a devolução de uma torre gótica à zona da Sé e à cidade, que dispensa completamente qualquer “arranjo” moderno para expor o que há de melhor em termos expressivos, materiais e imateriais.


Nota: Com a crítica a este projecto específico não pretendemos descrever ou opinar contra a obra do arquitecto Fernando Távora, que na realidade merece um maior destaque e reconhecimento do que é dado na actualidade - não pretendemos misturar as coisas. É como se pedissemos a Júlio Pomar ou  a qualquer outro pintor da actualidade que pintasse por cima de um quadro inacabado do século XIII em lugar de restaurá-lo; por mais expressivo, original ou até genial que fosse, não deixaria de ser um atentado.

12/04/2016

Mercado de S. Sebastião



Já há algum tempo que o pequeno Mercado de S. Sebastião na Sé chama a atenção; ou melhor, não chama o tipo de atenção desejada: os visitantes e turistas que sobem ou descem a Avenida D. Afonso Henriques em direcção à Sé Catedral passam junto ao local, ocasionalmente espreitam ou fotografam, mas ainda assim raramente entram no espaço ou compram o que quer que seja.

Ao contrário do Mercado do Bolhão, que é emblemático e atraí visitantes todos os dias, mesmo no estado em que actualmente se encontra, o Mercado de S. Sebastião quase passa despercebido e afigura-se como pequeno e acanhado num espaço que a própria câmara e a freguesia que o gere reconhece que terá de ser intervencionado devido ao enorme potencial que o mesmo representa para que chame mais a atenção e os comerciantes locais possam usufruir do mesmo.

O problema do Mercado de S. Sebastião cruza-se com o desaproveitamento da própria Avenida D. Afonso Henriques que isola o primitivo bairro da Sé em lugar de funcionar como agregadora de outras áreas próximas da (antiga) freguesia. A limpeza e a retirada do arvoredo que o ocultava prometia dar-lhe maior destaque, mas não funcionou a seu favor. O edifício dos anos 90, que ainda assim não deixa de ser interessante por ser o primeiro do Porto a ter uma cobertura verde, continua a ser acanhado (pouco convidativo e quem por ali passa nem sempre percebe que se trata de um mercado), não dispõe de casa de banho, força as vendedoras a colocarem plásticos em volta das suas bancas para não estarem expostas às ventanias e já expõe vários sinais de degradação. Adicione-se a isto a desertificação do Centro Histórico registado desde há algumas décadas quando a clientela habitual são por norma residentes locais e temos aqui uma situação complexa que só um bom projecto de reabilitação urbana promete resolver – nem todos os casos são assim tão complexos, só que este é. Mas se for resolvido promete mudar muito para melhor esta área antiga da cidade.











Uma vez que já se reuniram todos os consensos mais que necessários para que a câmara municipal intervenha neste mercado, mesmo que a curto prazo só se preveja uma requalificação de melhoria de acessos e condições, só desejamos que futuramente surja um projecto de maior envolvência para que o Mercado seja muito mais apelativo, funcional e coerente com os desejos dos comerciantes, residentes e sobretudo com as normas e linhas de séculos que ditaram a exclusiva e típica arquitectura do centro histórico classificado pela UNESCO – um desafio que um sério amante do património não poderia recusar. Mas, por favor: não pensemos num novo projecto sacrificando o pouco arvoredo existente; qualquer arquitecto paisagístico, urbanista digno ou cidadão consciente que encare o imenso vazio e a posição isolacionista que se tornou a Avenida D. Afonso Henriques quando foi rasgada a meio do século passado não pode ignorar o valor que a plantação de mais árvores ou a projecção de uma alameda poderia prometer a este local.

08/04/2016

Governo Toma Medidas para Salvaguardar Cidades Históricas – Mas a Que Custo?



Mais do que uma moda, tomou o sentido de urgência: investir na Reabilitação Urbana e procurar inverter os danos causados de décadas de más políticas que prejudicaram os centros urbanos históricos das principais cidades do país e os negócios tradicionais associados aos mesmos, gerando centros históricos quase vazios, devolutos e ingratos ao investimento.

É hoje sabido que a recuperação eficaz dos centros históricos como o do Porto só será possível através de um conjunto de medidas que passa por impedir que se degradem mais ou percam o seu encanto e as referências exclusivas que em muitos casos se revestem de um amplo valor cultural e histórico – que muitos proprietários, infelizmente, não compreendem ou pura e simplesmente preferem ignorar. Durante muitos anos o Comércio Tradicional, relacionado com lojas emblemáticas ou negócios que são uma referência para cidadãos e visitantes, esteve vulnerável a diversos factores de risco e é difícil explicar porque é que nunca se tomaram medidas antes para impedir que negócios com décadas ou mais de um século de existência cessassem actividade devido APENAS ao capricho de proprietários com ânsia de subir as rendas. O caso do Porto é paradigmático nesse aspecto, pois demonstra o ridículo a que se chegou em que se tornou preferível manter lojas fechadas e prédios inteiros vazios e/ou a degradarem-se em lugar de lucrarem menos do valor de renda especulados pelos espaços dos seus imóveis.

Mas embora seja fácil mencionar a “ganância” dos proprietários que conduziu a inúmeros despejos – não só de donos de lojas, mas igualmente de antigos inquilinos habituados a pagar rendas baixas –, mesmo quando os donos não faziam obras mínimas para justificar as suas intenções (tornadas possíveis com a liberação das rendas em plena crise!), é também necessário reconhecer que a culpa nunca foi apenas dos mesmos, mas igualmente das leis e das elevadas cargas fiscais que os prejudicam em muito quando são forçados a manter rendas de valor irrisório. Não é por acaso que sintam necessidade de contestar o projecto de lei do PS votada hoje em Assembleia para dar poder às câmaras de proteger os negócios tradicionais (e instituições várias) que fazem «parte das memórias das cidades, travando ainda o aumento especulativo das rendas durante 10 anos» (congelando-as) «para as entidades que municípios classificarem como espaços de interesse histórico e cultural.»

E aqui questionamos: A medida tem um bom princípio e peca por tardia, mas… e como garantir que daí não saiam prejudicados os proprietários? Terão ao menos benefícios fiscais para compensar esse conjunto medidas?

Enquanto o projecto de lei é até ao momento omisso no que toca aos interesses dos proprietários (pois nem todos são ricos ou verdadeiramente gananciosos), pelo menos já se toma como garantido alguns apoios e benefícios para reabilitar para arrendar – mas reabilitar para arrendar a preços acessíveis, atraindo moradores também para os centros urbanos. A par da ausência de pagamento de IMI (mas que só é reservada aos centros históricos classificados pela UNESCO), o governo assim demonstra a intenção de querer repovoar os centros vazios que durante décadas perderam a sua população. E parece que pela primeira vez um governo procura equacionar a reabilitação urbana com o arrendamento social – algo que certamente valorizamos e que hoje em dia faz todo o sentido, pois quando se fala do problema de «Tanta Casa Sem Gente/Tanta Gente Sem Casa» percebe-se bem que está directamente relacionado com a falta de medidas para contrariar esta tendência vergonhosa das nossas cidades.

E como demonstra o governo que tem preocupações sociais com o arrendamento? Dispondo generosamente de 1400 milhões de euros do Fundo de Estabilidade da Segurança Social para que proprietários sem recursos possam reabilitar os seus imóveis e garantir preços acessíveis… Ou seja, à parte das manobras fraudulentas que já devemos estar à espera e são típicas deste país, (até é de esperar que alguns políticos proprietários se sirvam dos seus contactos para aceder a este fundo de forma indevida), temos agora a Segurança Social a pagar obras de Reabilitação Urbana…

Poderíamos lançar um conjunto de questões relacionadas com esta medida, começando, evidentemente, pela questão de como poderia a cidade do Porto mudar para melhor com este último incentivo à reabilitação, mas o que nos preocupa mesmo é não saber se o governo estudou bem o que propõe, se sabe o que propõe e se não é capaz de contemplar outras soluções que não passem mais uma vez por disporem estouvadamente do financiamento dos descontos de centenas de milhares que temem um dia nem sequer ter reforma ou o mínimo auxílio social para uma plano do qual a maioria nunca usufruirá e de que nem sabemos se virá a funcionar na prática, com o impacto desejado.


Salvaguardar cidades históricas e garantir expansivamente a reabilitação das mesmas terá o seu custo, mas um custo que se justifique…


Fonte:





06/04/2016

O Porto Despertou para a Arte Urbana



É uma afirmação já com alguns anos de atraso – uma das maiores confirmações de que o Porto começou a sair da sua Idade das Trevas (ou uma das suas Idades das Trevas, porque já existiram várias e elas poderão sempre voltar a ressurgir) é a tolerância para com a arte e sobretudo uma maior abertura para a cultura:«O Porto Despertou para a Arte Urbana» Trata-se de uma marca de civilização óbvia que coloca a cidade num patamar verdadeiramente europeu.

Não deixando de estar atentos a tudo o que promete transformar o Porto (em muitos casos para o melhor), evidentemente que teriamos de assinalar a importância dos murais nesta cidade, desde o mural colectivo da Rua de Restauração que já passou por várias transformações ao mural de "D. Quixote e Sancho Pança" na Rua de Diogo Brandão e à obra expansiva de Hazul Luzah (para nomear apenas uma parte).



O despertar e a promoção da Arte Urbana tomaram enfim repercussões assinaláveis, principalmente a nível das pinturas murais, que finalmente deixaram de ser reconhecidas como sinais de vandalismo (no que toca à Street Art, por vezes as fronteiras são ténues) e a cidade ganha novas tonalidades, quebrando de vez com o tom cinzento e sombrio que muitas das suas áreas adquiriram por via de um vazio – vazio intelectual, vazio cultural, vazio criativo, etc. – e devido a um conservadorismo ou a uma intolerância severa própria da incompreensão daqueles que encaram a homogeneidade e o máximo rigor e a ordem austera como um ideal próprio do espírito humano (curiosamente, esse é um princípio que deve ser aplicado ao funcionalismo que deveria caracterizar o urbanismo, a arquitectura utilitária, equipamentos, etc., mas nem por isso a cidade do Porto é verdadeiramente funcional). O Porto há muito que carecia de mais cor, de mais atitude e de maior expressividade que só a arte pode conferir.

Perante o que encaramos como um fenómeno positivo, que pode adquirir ainda maior amplitude, só lamentamos que seja (quase) só a pintura mural a adquirir todo este protagonismo. Certamente marcada por uma assinalável contemporaneidade falta ainda valorizar alguns enquadramentos relacionados com o passado e com o futuro, embora tenhamos de reconhecer que face à pintura mural, algumas intervenções possam ser um pouco mais dispendiosas na execução e na manutenção.




Mas quando falamos de um enquadramento passado, referimo-nos sobretudo à Azulejaria, que deveria voltar a adquirir um maior protagonismo numa cidade onde os azulejos dotaram fachadas mais antigas de maior beleza e apreciação (como os casos da Capela das Almas na Rua de Santa Catarina e da Igreja do Carmo na Praça de Carlos Alberto). Quanto a um enquadramento futuro, falamos de intervenções que não estão apenas alinhadas com possibilidades tecnológicas mas antes com preocupações ambientais e de renovação paisagística – por algum motivo, o Porto ainda carece de Green Walls (Paredes Verdes) ou Jardins Verticais que podem ajudar a absorver a poluição e a dar uma melhor aparência a muitos locais e edifícios, tornando-se visualmente interessantes. O mesmo já se faz em várias cidades europeias e são o fruto do trabalho de várias artistas dotados de maior preocupação ambiental. 

05/04/2016

Ruínas do Hospício de S. Francisco de Paula


Não deve existir cidadão consciente residente em Lordelo do Ouro que não continue a lamentar o estado de ruína em que se encontra este conjunto edificado do século XVIII que corresponde ao velho Hospício de S. Francisco de Paula, também conhecido por Quinta dos Frades, situado na Rua de Serralves.

Enquanto a icónica Fábrica de Lanifícios de Lordelo que se situa em frente apresenta uma melhor imagem devido à sua reabilitação recente – mesmo que venha a servir para propósitos diferentes dos originais – parece que este antigo edifício vai permanecer no mesmo estado durante muitos anos, se não vier a arruinar-se mais, já que por motivos que nos são alheios deixou de estar referenciado pelo IGESPAR e actualmente não dispõe de qualquer protecção legal.

Fundado no ano de 1780, a arquitectura do velho hospício apresenta-se como interessante, já que se trata de um casamento entre as linhas barrocas e neoclassicistas que vão marcar este período de tempo, sendo esse exemplo mais bem reconhecido na sua capela, cuja frontaria apresenta um pórtico encimado por um frontão triangular e é sobrepujada por um largo frontão interrompido marcado por elementos sinuosos. De resto, é certo que tenha vindo a sofrer alterações posteriores. Aqui estiveram instalados os frades “Mínimos” que cuidavam de outros religiosos doentes ou que necessitavam de cuidados, mas sendo de tal modo dependentes de esmolas para manter o hospício e a sua capela, foram forçados a abandonar o local por alturas da Segunda Invasão Francesa, em 1809, quando os recursos económicos e a mão-de-obra disponíveis para completar as obras do conjunto inacabado eram escassos.



Há elementos num dos edíficios contíguos do hospício que remontam a uma fase posterior de ocupação, nomeadamente durante o século XIX (gradeamentos em varas, painéis de azulejos) e caixilhos de madeira em janelas que certamente não poderiam durar tanto tempo, fazendo-nos interrogar em que circunstâncias é que o antigo hospício foi reocupado e desocupado novamente − estarão directamente relacionadas com a Fábrica de Lanifícios que ocupou parte da antiga propriedade dos frades ou com o misterioso ocupante conhecido por Gouveia, que fez do antigo hospício quinta e mesmo assim não chegou a recuperar a capela e parte da casa inacabadas? (Daí o nome «Quinta do Gouveia», pelo qual também é conhecido o conjunto de ruínas, embora um dos cidadãos locais presuma que Gouveia era o nome de um proprietário anterior à fixação dos «Mínimos»)

É incrível que ainda hoje, passados mais de duzentos anos, se verifique em vários locais do Porto e nos seus arredores as marcas devastadoras das Invasões Francesas – principalmente em antigas propriedades de campo, muitas das quais recuperadas em tempos mais recentes; mas mais incrível ainda é a falta de vontade em relação às autoridades competentes em procurar salvaguardar alguns exemplos que resistiram a esse período de tempo e clamam por maior valorização como marca indelével da nossa história e cultura.

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