06/04/2016

O Porto Despertou para a Arte Urbana



É uma afirmação já com alguns anos de atraso – uma das maiores confirmações de que o Porto começou a sair da sua Idade das Trevas (ou uma das suas Idades das Trevas, porque já existiram várias e elas poderão sempre voltar a ressurgir) é a tolerância para com a arte e sobretudo uma maior abertura para a cultura:«O Porto Despertou para a Arte Urbana» Trata-se de uma marca de civilização óbvia que coloca a cidade num patamar verdadeiramente europeu.

Não deixando de estar atentos a tudo o que promete transformar o Porto (em muitos casos para o melhor), evidentemente que teriamos de assinalar a importância dos murais nesta cidade, desde o mural colectivo da Rua de Restauração que já passou por várias transformações ao mural de "D. Quixote e Sancho Pança" na Rua de Diogo Brandão e à obra expansiva de Hazul Luzah (para nomear apenas uma parte).



O despertar e a promoção da Arte Urbana tomaram enfim repercussões assinaláveis, principalmente a nível das pinturas murais, que finalmente deixaram de ser reconhecidas como sinais de vandalismo (no que toca à Street Art, por vezes as fronteiras são ténues) e a cidade ganha novas tonalidades, quebrando de vez com o tom cinzento e sombrio que muitas das suas áreas adquiriram por via de um vazio – vazio intelectual, vazio cultural, vazio criativo, etc. – e devido a um conservadorismo ou a uma intolerância severa própria da incompreensão daqueles que encaram a homogeneidade e o máximo rigor e a ordem austera como um ideal próprio do espírito humano (curiosamente, esse é um princípio que deve ser aplicado ao funcionalismo que deveria caracterizar o urbanismo, a arquitectura utilitária, equipamentos, etc., mas nem por isso a cidade do Porto é verdadeiramente funcional). O Porto há muito que carecia de mais cor, de mais atitude e de maior expressividade que só a arte pode conferir.

Perante o que encaramos como um fenómeno positivo, que pode adquirir ainda maior amplitude, só lamentamos que seja (quase) só a pintura mural a adquirir todo este protagonismo. Certamente marcada por uma assinalável contemporaneidade falta ainda valorizar alguns enquadramentos relacionados com o passado e com o futuro, embora tenhamos de reconhecer que face à pintura mural, algumas intervenções possam ser um pouco mais dispendiosas na execução e na manutenção.




Mas quando falamos de um enquadramento passado, referimo-nos sobretudo à Azulejaria, que deveria voltar a adquirir um maior protagonismo numa cidade onde os azulejos dotaram fachadas mais antigas de maior beleza e apreciação (como os casos da Capela das Almas na Rua de Santa Catarina e da Igreja do Carmo na Praça de Carlos Alberto). Quanto a um enquadramento futuro, falamos de intervenções que não estão apenas alinhadas com possibilidades tecnológicas mas antes com preocupações ambientais e de renovação paisagística – por algum motivo, o Porto ainda carece de Green Walls (Paredes Verdes) ou Jardins Verticais que podem ajudar a absorver a poluição e a dar uma melhor aparência a muitos locais e edifícios, tornando-se visualmente interessantes. O mesmo já se faz em várias cidades europeias e são o fruto do trabalho de várias artistas dotados de maior preocupação ambiental. 

05/04/2016

Ruínas do Hospício de S. Francisco de Paula


Não deve existir cidadão consciente residente em Lordelo do Ouro que não continue a lamentar o estado de ruína em que se encontra este conjunto edificado do século XVIII que corresponde ao velho Hospício de S. Francisco de Paula, também conhecido por Quinta dos Frades, situado na Rua de Serralves.

Enquanto a icónica Fábrica de Lanifícios de Lordelo que se situa em frente apresenta uma melhor imagem devido à sua reabilitação recente – mesmo que venha a servir para propósitos diferentes dos originais – parece que este antigo edifício vai permanecer no mesmo estado durante muitos anos, se não vier a arruinar-se mais, já que por motivos que nos são alheios deixou de estar referenciado pelo IGESPAR e actualmente não dispõe de qualquer protecção legal.

Fundado no ano de 1780, a arquitectura do velho hospício apresenta-se como interessante, já que se trata de um casamento entre as linhas barrocas e neoclassicistas que vão marcar este período de tempo, sendo esse exemplo mais bem reconhecido na sua capela, cuja frontaria apresenta um pórtico encimado por um frontão triangular e é sobrepujada por um largo frontão interrompido marcado por elementos sinuosos. De resto, é certo que tenha vindo a sofrer alterações posteriores. Aqui estiveram instalados os frades “Mínimos” que cuidavam de outros religiosos doentes ou que necessitavam de cuidados, mas sendo de tal modo dependentes de esmolas para manter o hospício e a sua capela, foram forçados a abandonar o local por alturas da Segunda Invasão Francesa, em 1809, quando os recursos económicos e a mão-de-obra disponíveis para completar as obras do conjunto inacabado eram escassos.



Há elementos num dos edíficios contíguos do hospício que remontam a uma fase posterior de ocupação, nomeadamente durante o século XIX (gradeamentos em varas, painéis de azulejos) e caixilhos de madeira em janelas que certamente não poderiam durar tanto tempo, fazendo-nos interrogar em que circunstâncias é que o antigo hospício foi reocupado e desocupado novamente − estarão directamente relacionadas com a Fábrica de Lanifícios que ocupou parte da antiga propriedade dos frades ou com o misterioso ocupante conhecido por Gouveia, que fez do antigo hospício quinta e mesmo assim não chegou a recuperar a capela e parte da casa inacabadas? (Daí o nome «Quinta do Gouveia», pelo qual também é conhecido o conjunto de ruínas, embora um dos cidadãos locais presuma que Gouveia era o nome de um proprietário anterior à fixação dos «Mínimos»)

É incrível que ainda hoje, passados mais de duzentos anos, se verifique em vários locais do Porto e nos seus arredores as marcas devastadoras das Invasões Francesas – principalmente em antigas propriedades de campo, muitas das quais recuperadas em tempos mais recentes; mas mais incrível ainda é a falta de vontade em relação às autoridades competentes em procurar salvaguardar alguns exemplos que resistiram a esse período de tempo e clamam por maior valorização como marca indelével da nossa história e cultura.

04/04/2016

Prédio Nºs 109 - 113 na Rua do Bonjardim

Um dos mais pequenos prédios da Rua do Bonjardim é dotado de uma aparência peculiar que causa curiosidade e estranheza mesmo entre os turistas. Já foi uma cervejaria muito conhecida para quem transitava pelo centro da cidade – a Cervejaria Stadiun – e é evidente que apresenta as características ideais para funcionar como cervejaria ou pub, embora já se encontre abandonada há um bom tempo.

Distingue-se por causa da sua fachada gótica que data de 1922, executada por vontade da Parceria Vinícola do Norte Lda., tendo demolido as entradas originais do pequeno prédio para conter os novos, de portas em ferro e vidro com três arcos ogivais sustentados por colunas de capitéis com folhagens. À decoração da fachada juntam-se outros detalhes, como os pináculos com cogulhos. O seu interior também foi inteiramente remodelado no mesmo ano, pois a Parceria Vinícola do Norte pretendia fazer do mesmo um edifício social com uma funcionalidade adequada.

É perfeitamente natural que com o passar dos tempos o pequeno prédio tenha sido alterado, mas não perdeu a sua graça ou a fachada exclusiva que o caracteriza.

Junto ao pequeno prédio situa-se outro, bem mais alto, certamente contemporâneo dos Nºs 109 - 113 (não da fachada revivalista, mas do prédio original) que se encontra igualmente devoluto – se o conjunto fosse devidamente aproveitamento, um como bar/pub e outro possivelmente como hostel, esta parcela da Rua do Bonjardim teria uma aparência bem mais convidativa.

Há Esperança para o Caminho Português de Santiago?



Esperança há sempre. Mas a esperança alimentada por políticos em Portugal já sabemos o que vale: um conjunto de boas intenções, criação de (falsas) expectativas, discursos para referir o problema através de frases «temos de…» é «necessário fazer…», iniciativas várias que apontam no sentido de que se vai fazer alguma coisa e depois, passados alguns anos, vemos que as coisas pouco evoluem ou ficam praticamente na mesma, quando não obtém os tristes resultados que deixam muito a desejar.

Há que relembrar que os problemas relacionados com o Caminho Português para Santiago são complexos e não apresentam fácil resolução, tal como os problemas relacionados com a eficácia da Reabilitação Urbana nos Centros Históricos (que de alguma forma também está relacionado). E para termos em conta essa complexidade ou as dificuldades de uma total adequação do Caminho Português para Santiago a pedestres e às circunstâncias contemporâneas que passam por roteiros antigos tomamos como exemplo o(s) Caminho(s) para Fátima – com décadas de existência e ainda assim parcos ou inexistentes foram os esforços de sucessivos governos para que as principais vias se tornassem seguras, fossem bem sinalizadas ou desviadas de locais de maior tráfego automóvel (ao contrário do esforço de cidadãos anónimos e associações que procuram fazer a diferença). É de supor se isto já se passa com vias que todos os anos são percorridas por centenas a milhares de peregrinos todos os anos e com os quais se verificam constantemente acidentes ou dificuldades, imagine-se com o Caminho Português de Santiago que o Eixo Atlântico quer candidatar à UNESCO!

De qualquer maneira não vamos transformar uma notícia positiva que demonstra claramente a intenção de várias autarquias do Norte em recuperar e valorizar este Caminho em algo suspeito ou numa falsa promessa. É preciso salientar, isso sim, que tornar este velho roteiro transitável e funcional vai implicar mais do que uma boa sinalização, mas sobretudo a transformação e/ou a adaptação de muitas artérias e vias que se encontram inadequadas ou desprezadas, complementando-as com melhores serviços de informação, MAIOR PROMOÇÃO, e um claro auxílio aos peregrinos – nomeadamente albergues (ou seja, vai implicar variadas estratégias, escolhas, inteira dedicação, obras, intervenções, cooperação com diferentes entidades e projectos faseados que poderão levar bem mais do que uma década a implementar para que se torne inteiramente funcional). E depois há as pequenas questões por esclarecer que deveriam ser salutares:

 »Será que futuramente este Caminho tornar-se-á bem mais seguro e que exija menos esforços e menores exigências por parte daqueles que pretendem percorrê-lo?

 »Será devidamente complementado com novas vias de acesso para fugir a locais de maior tráfego automóvel e riscos de circulação?

 »Áreas urbanas por onde passa o antigo Caminho terão prioridade em termos de Reabilitação, tornando-o mais cativante e convidativo?

 »Terá em conta o meio ambiente e também irá dispor de passagens e vias arborizadas ou minimamente salvaguardas para que os peregrinos sejam poupados aos fumos e gases de tubos de escape automóvel ou à poluição citadina?

 »A reabilitação prevista da Circunvalação e de outras estradas principais na Área Metropolitana do Porto terá em conta passagens preparadas ou adaptadas a este Caminho?

 »Prevê-se que todo o Caminho possa conter uma longa ciclovia, adequando-o também a ciclistas?

 »O Caminho Litoral Português para Santiago terá em conta o Caminho para Fátima, os problemas de segurança que presentemente apresenta e ambos poderão ser fundidos num só?

 »Estas vias que compõem o Caminho serão privilegiadas e para além de uma sinalética própria o seu piso apresentará um padrão facilmente identificável e coerente com as necessidades de caminhantes (mas também de ciclistas) e ainda assim coerentes com os locais e centros históricos pelos quais passam?


De momento, são questões sem resposta.

É óbvio que esta notícia não diz só respeito ao Porto ou à sua área metropolitana, mas tendo em conta os esforços de outros municípios do Norte do país em recuperar acessos e melhorar a sinalética para o velho Caminho Português de Santiago, já era mais que altura do Porto começar a dar também o exemplo – começando pela Sé e o rico Centro Histórico que a envolve.


Fonte:




31/03/2016

Moradia de Joaquim Soares da Silva Moreira

Já aprendemos há algum tempo que nem as obras dos mais notáveis arquitectos de Portugal escapam a este desprezo e total ausência de manifesta vontade por parte das autoridades competentes ou gente responsável que permitem que casas únicas sejam votadas ao abandono durante muitos anos a fio e acabem por se degradar. Receamos que o mesmo venha a acontecer com esta moradia que se situa na Rua de D. João IV, tendo sido projectada pelo distinto arquitecto José Marques da Silva.

Na época em que foi erguida esta era a Rua Duquesa de Bragança que replicava o exemplo de construção de palacetes e mansões de uma burguesia próspera que eram vísiveis noutras ruas da freguesia do Bonfim (talvez a mais rica em termos de arquitectura civil e particular da cidade do Porto), fenómeno que já se vinha a verificar desde finais do século XIX. 

Esta moradia, procurando imitar alguns dos modelos existentes, mas ainda assim original em vários aspectos, foi erguida segundo vontade do proprietário Joaquim Soares da Silva Moreira, comerciante de torna-viagem original de Moreira da Maia, que não só foi vereador da Câmara Municipal do Porto e comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, como se destacou enquanto administrador do Banco Aliança e como accionista da Companhia Aurífica. Marques da Silva projectou-a em 1904 para o seu cliente, mantendo alguma fidelidade para com a arquitectura portuense da época, mas ainda assim conjugando-a com as linhas das Beaux-Arts de Paris, tendo escolhido os melhores materiais através de uma notória ausência de restrinções orçamentais.

Mais tarde a moradia sofrerá novas alterações. Em 1914 é acrescentada uma varanda virada para o jardim e em 1925 uma garagem no quintal, dispondo de arrecadações no piso superior. Ainda hoje se distingue pelo seu jardim, que cobre uma área situada num estreito entre a Rua D. João IV e a Rua Comandante Rodolfo de Araújo, ambas com ligação à Rua de Fernandes Tomás. Os gradeamentos de linhas sinuosas e os jarrões em granito que ladeiam os portões são um exemplo de outros detalhes interessantes.

30/03/2016

Casa Nº843 na Rua de Santos Pousada

É de questionar se uma casa tão pequena, que se destaca apenas pelo número 1934 (a data da sua construção) em relevo num painel sobre a única janela virada para a rua deverá ser reconhecida como património. Todavia, embora as suas dimensões ou a sua arquitectura não preenchem o interesse ou a curiosidade de muitos, que reconhecem em muitas outras grandes obras espalhadas pelo Porto uma expressividade e um valor histórico mais significativo, não poderemos ignorar que se trata de uma obra de um arquitecto relevante da cidade e que também não merece cair no anonimato.

Mário Augusto Ferreira Abreu projectou esta casa, designada como prédio, para Narciso Duarte, o seu primeiro proprietário, que nela veio a habitar durante os anos 30. A influência Art Deco é nítida, se bem que residual. Talvez seja mais justo referir-se à mesma como modernista, enquanto muitos investigadores veriam nela uma simplificação absoluta de ambos os estilos da arquitectura.

Enquanto o piso superior se encontra virado para a Rua de Santos Pousada, cuja fachada transmite a degradação absoluta que actualmente a caracteriza, um outro piso encontra-se virado para um pátio a nível inferior do pavimento da rua. Curiosamente, era no primeiro piso, inferior, que se encontravam os quartos da casa, enquanto a cozinha e sala de visitas se encontrava no piso superior. Realmente é de questionar se sobre o pequeno espaço que ocupa a casa não seria possível antes erguer um prédio de vários andares que melhor o aproveitasse, permitindo ser ocupado por maior número de habitantes. Todavia, mesmo que estivessemos dispostos a sacrificar uma obra de um arquitecto notável, por mais pequena que seja ou insignificante que pareça, também dá para questionar se não seria possível aproveitar parte da mesma e erguer em altura um prédio coerente com as linhas que Mário Abreu concebeu.

Enfim, questões... Mantê-la no estado em que se encontra é que parece ser pior ideia.

29/03/2016

Moradia Nº140 na Rua Joaquim António Aguiar
























Entre os vários prédios revestidos a azulejos na urbanização do Cirne, no Bonfim, caracterizados por uma ténue ou mais completa influência Art Nouveau, não passa despercebida esta antiga moradia na esquina do cruzamento da Rua Joaquim António de Aguiar com a Rua do Duque da Terceira. Os elementos vegetalistas não só marcam presença nos seus azulejos verdes e nos seus gradeamentos como ainda são reconhecidos através da sinuosidade de molduras das janelas e portas ou de outros contornos que lembram a arquitectura barroca – se bem que mais estilizada.

As acácias das ruas ensombram um pouco o imóvel, mas longe de serem incoerentes com a sua arquitectura e a aprazibilidade que transmite esta velha urbanização, dão-lhe um efeito “vivo”, perdendo apenas por estar abandonado e em processo de degradação.

A moradia foi erguida para nela habitar António Joaquim Moreira de Sousa, que adquiriu o terreno onde se encontra em 1908, confiando o seu projecto a Manuel Ferreira Ribeiro. Todavia, o projecto original foi alterado e rectificado ao longo dos anos, tendo levado a vários acrescentos que são facilmente distinguidos. Mais tarde, com a morte do seu proprietário, a casa passa para as mãos de um sobrinho que a vende a Francisco José Leite em 1922. No ano de 1929 é comprada por Adriano Rebelo de Melo Cabral, que nela habita até aos finais do século XX. Os seus herdeiros venderam a moradia à empresa Valaminaz – Arquitectura e Construção, mas por motivos que nos são alheios o imóvel permaneceu vazio e sem um projecto para reabilitá-lo desde então.

Antigo Depósito da Água da CP será Reabilitado























Embora a notícia falhe por confundir professores por alunos, pelo menos promete quebrar com a ideia de que a reabilitação de equipamentos e estruturas não pode ser efectuada por designers.

Elias Marques e Sérgio Correia, professores da ESAD (e igualmente EX-ALUNOS) vão assim recuperar um antigo depósito de água de 1884 que se encontra junto à estação de metro da Senhora da Hora e que está em risco de ruir. O alerta para os riscos de perda desta estrutura partiu do Movimento Cívico pela Recuperação do Património da Senhora da Hora, cujo interessante trabalho merece ser acompanhado de perto (é pena que ainda escasse mais movimentos do género noutras freguesias e concelhos, embora inúmeros cidadãos vão ganhando cada vez mais respeito e maior sensibilidade em relação ao património em risco das áreas que os rodeiam.

As obras arrancarão em Abril e irão assim dar início a um plano que a própria Câmara Municipal já contemplava há alguns anos, mas que nunca pôde concretizar devido à falta de autorização da IP (Infraestruturas de Portugal), proprietário do equipamento.

28/03/2016

Prédio Nº383 – 385 Rua de Alexandre Herculano

E pronto! Encontramos mais um exemplar Art Deco da autoria do arquitecto Mário Augusto Ferreira de Abreu num péssimo estado (e julgamos ainda ser capazes de descobrir mais). Desta vez foi na freguesia da Sé, na Rua de Alexandre Herculano, onde o estado de vários edificações continua a dar uma péssima imagem para esta cidade – relembrando que todos os dias chegam aqui pessoas provindas dos mais diversos pontos do país através de camionetas de transportes de passageiros, para além dos turistas que se espantam e questionam como é possível imóveis históricos chegarem a tamanho estado de degradação.

Enquanto não vemos pequenas placas ou sinais a marcar roteiros das obras dos mais notáveis arquitectos da cidade do Porto (começando evidentemente por Nicolau Nasoni e José Marques da Silva) ou não evoluímos no sentido de uma promoção mais eficaz da Art Deco (como da Arte Nova – porque motivo ambos os estilos são quase eclipsados nos livros de História de Portugal e procura-se destacar mais o que foi feito noutros países da Europa durante o mesmo período de tempo?), pelo menos vamos ansiando pela reabilitação de um prédio que já deveria ter sido reabilitado há um bom período de tempo.

A história deste prédio recua ao ano de 1937 quando o dono do terreno onde actualmente se encontra, Augusto Alberto de Souza, residente na Rua do Bonfim, planeia e requere licença para a construção de um imóvel que sirva de recolha de carros e contenha habitações. Mais tarde, em 1939, confiando o projecto a Mário Augusto Ferreira de Abreu, opta por alterá-lo substancialmente, embora acabasse por servir na mesma o propósito que o proprietário planeava. Ainda hoje serve de parque de estacionamento automóvel – os pisos da habitação é que se encontram vazios (ou pelo menos tudo assim o indica, dados os sinais exteriores).

Além de um antigo conjunto envidraçado do primeiro piso se encontrar completamente emparedado, a fachada do prédio encontra-se de tal forma degradada que o próprio betão aparece corroído, como se tudo o que revestisse a estrutura do imóvel estivesse a derreter. Para quem ali passa não é difícil perceber que se não for intervencionado o quanto antes, vários pedaços de betão e reboco continuarão a cair… Só esperamos que não atinja ninguém ou que não se liberte algum pedaço grande o suficiente capaz de causar sérios danos a pessoas e viaturas. 

Moradia Nº289 na Rua de Alexandre Herculano


Na esquina do cruzamento da Rua de Alexandre Herculano com a Rua Duque de Loulé, que marca justamente a fronteira entre a freguesia da Sé e a do Bonfim, encontra-se uma das grandes moradias históricas mais devolutas da cidade do Porto.

É distinta e significativa, marcada por sinais de muitos anos de abandono e vandalismo, já que se encontra demasiado exposta e vulnerável. Apesar de uma elevada dimensão e de uma dada relevância a nível arquitectural, não se trata de uma casa com elevado valor histórico – embora patrimonial seja a palavra mesmo adequada, já que segue de perto um conceito similar ao dos notáveis palacetes dos finais do século XIX que podemos encontrar no Bonfim (demoli-la seria sem dúvida um crime). O seu primeiro proprietário era Joaquim José Dias Pereira, dono de uma série de terrenos na área, que a mandou erguer em 1888.

Além de ampla e possuir um muro gradeado que rodeia o que outrora terá sido um pátio ajardinado, dispondo de portões, a sua fachada virada para a Rua de Alexandre Herculano, detentora do Nº289, é dotada de maior interesse, contrastando um pouco com a sobriedade geral do edifício. Não é difícil discernir os elementos neoclássicos que vieram a ser implementados em muitos prédios da cidade do Porto: a janela central do segundo piso é encimada por um frontão triangular e o primeiro piso é dotado de blocos de alvenaria separados por juntas profundas, embora se limitem a servir de moldura.

Os maiores danos da casa são visíveis nas traseiras, embora seja claro que o telhado se encontre esburacado, as paredes revelam escoriações graves, filmes negros cubram o granito exposto, portas e janelas terão de ser substituídas, a exposição ao vandalismo comprovado pela presença de grafitis terá de ser contrariada e que o seu interior deverá conter obras de remodelação profundas ou completas para que volte a ser seguro circular entre as diferentes divisões. Encontra-se à venda já há uma série de anos e, lamentavelmente, é difícil concluir se o preço de compra iguala o elevado custo de reabilitação…

21/03/2016

Escola Secundária Alexandre Herculano com Tectos a Cair e Pisos a Aluir

Infiltrações de água, tectos a cair, aluimento de pisos e derrocadas, caixilharias das janelas apodrecidas e sobrecargas eléctricas sistemáticas na Escola Secundária Alexandre Herculano da autoria de José Marques da Silva… É isto que relata o JN da passada sexta-feira.

Já há algum tempo que temos dado conta de relatos do género e já foi anunciado que esta escola, projecto de um dos mais notáveis arquitectos da cidade do Porto, necessitaria de obras, mas não julgávamos que o caso fosse tão (apesar da presença de musgo na fachada principal já nos ter causado alguma preocupação).

Esta escola é um ícone da arquitectura civil portuguesa do início do século XX e é mesmo difícil acreditar que nos últimos anos não se fizeram as obras de manutenção mais básicas para evitar prejuízos piores ou garantir a sua dignidade – tanto mais com as centenas de milhões de euros que já foram gastos (em parte esbanjados/desperdiçados) com a Parque Escolar! Em matérias civilizacionais há que saber definir prioridades e antes de se falar simplesmente do património há que salientar que a Saúde e a Educação não se brinca; afinal são dois pilares valiosos da nossa sociedade, não são? E com sentimentos de exclusão deve-se brincar ainda menos, a não ser que queiramos regredir ao século XIX: o caso desta escola parece descrever um dos mais tristes problemas que a população do Porto enfrente há décadas (ou talvez mais), que é a sua divisão por uma área ocidental e oriental, fazendo com que os habitantes de Bonfim e Campanhã (sobretudo os de Campanhã) continuem a ser mais prejudicados.

Por curiosidade, não reunimos até ao momento o mesmo tipo de relatos graves na Escola Secundária Rodrigues de Freitas, que é justamente da autoria do mesmo arquitecto e da mesma época… Embora possamos estar errados no que toca à sua manutenção, a título de comparação, isso dá que pensar.

Padrão do Bom Jesus


Causa desconforto pensar que um dos mais importantes monumentos de Matosinhos encontra-se desprotegido e exposto ao vandalismo de uma forma que roça o ridículo ou a pura negligência de quem é responsável por cuidar do mesmo (não há outra forma de descrever a situação). Este conjunto edificado do século XVIII não está só relacionado com uma das lendas mais significativas do concelho como é emblemático e se encontra classificado.

Qual é o motivo então para que à mínima aproximação alguém se pasme pelos danos presentes na azulejaria que reveste a cruz de pedra do altar, pela degradação das esculturas de santos a necessitar de um sério restauro, para que o tecto da abóboda do grande alpendre de granito que o envolve revele escoriações gravosas com sinais de infiltrações de água e que os frontões da fonte que faz parte do conjunto se encontrem quebrados? Não é só um caso de falta de manutenção ou de exposição aos elementos – a altura baixa do gradeamento que o rodeia e a ausência de vigilância adequada é um completo convite ao vandalismo.

Não deve ser difícil zelar pelo Padrão do Bom Jesus e restaurá-lo na mesma medida em que se poderia efectuar a recolha de esmolas de fiéis para começar a fazê-lo, mas essa “solução” monetária serve apenas de sugestão. Se estamos a falar de um dos monumentos mais emblemáticos de Matosinhos, que por acaso nem ocupa uma ampla área, apesar de ser uma joia da arquitectura barroca que merece um dado destaque e importância na organização do espaço, estimá-lo deveria ser uma prioridade.

16/03/2016

Prédio Nºs 23 - 27 na Rua Correia de Sá

Aquela que é hoje a Rua Correia de Sá, com ligação à Avenida da Boavista, era outrora parte do local conhecido como Lugar da Fonte da Moura e existia uma linha de caminho-de-ferro bem próxima com ligação à Foz que permitiria localizar com maior precisão esta artéria ainda por baptizar no início do século XX.

Numa zona caracterizada por moradias burguesas da alta classe média ou até mesmo da classe alta, este prédio foi erguido sem grandes pretensões, sendo antes fiel às mesmas linhas do típico casario do Porto que podemos reconhecer desta época. A sua construção data de 1914 e o seu primeiro proprietário foi Benjamim Alfredo Amorim, que adquiriu o lote um ano antes. Existiu um primeiro projecto datado de 1913 entregue ao mestre-de-obras José Joaquim de Carvalho, mas o proprietário não o apreciou e optaria por alterá-lo.

O prédio que hoje reconhecemos é simétrico, possuí duas entradas para duas habitações separadas, como era típico da época (embora não tenhamos a certeza se acabou por servir esse propósito), apesar de estreitas, e tem apenas dois pisos, mais uma época divisão acrescentada nas águas furtadas, que não ocupada muito mais do que a largura de uma vulgar janela. São os azulejos vermelhos que lhe dão maior vivacidade. Já perdeu a sua varanda em ferro forjada e boa parte dos azulejos que revestem a sua fachada, sendo vísiveis os estragos que contribuem para a sua degradação, mas ainda assim mantém uma certa graça e causa curiosidade, destacando-se numa rua composta por edíficios que datam sobretudo de décadas posteriores.

15/03/2016

O Caminho de Santiago é uma Vergonha!
























Em cima: uma rara representação de uma vieira a indicar o caminho medieval para Santiago de Compostela na zona da Sé do Porto (tão rara que não encontramos mais nenhuma no caminho do centro histórico).

Todos aqueles que se interessam pelo Centro Histórico do Porto e pela sua valorização, sobretudo pela área classificada pela UNESCO, não pode deixar de ignorar a crua verdade de que embora muito tenha melhorado nos últimos anos ainda há muitos aspectos que ainda deixam a desejar. Não se trata só de melhorar em matérias de reabilitação e ambientais, mas igualmente no que toca às vias de circulação e acesso.

O condicionamento do trânsito na Rua das Flores pode ter sido uma melhoria válida e um primeiro passo nesse sentido, mas não faltam outras artérias a necessitar urgentemente de maior atenção e de intervenção por parte do poder local – principalmente quando falamos de artérias que atraem turistas e que estão intimamente ligadas à história da cidade ou que oferecem um potencial único que não está devidamente aproveitado. É que um dos mais curiosos exemplos diz respeito ao Caminho para Santiago de Compostela que pode ser iniciado na Ribeira ou na Sé Catedral do Porto e passa por Vitória; já é estranho que o município não se organize com outros (principalmente com o de Matosinhos, que ainda desvaloriza também a rota litoral do Caminho para Santiago) para melhorar uma via ideal para peregrinos ou meros caminhantes, como despreza em absoluto a sinalética que deveria ser crucial para orientar o visitante.


Mais uma seta na zona da Sé: um parco esforço de sinalética, que embora seja recorrente nos caminhos para Santiago, não ilustra o melhor que se pode fazer para dignificar uma cidade histórica como o Porto.

A sinalética em alguns pontos quase não é reconhecida – resume-se a uma seta amarela pintada por uma vulgar lata de tinta (esperemos que não tenha sido a Câmara a fazê-lo, embora isso, por outro lado, também nos preocupa). Este desleixo quase dá ideia de que não há mais a fazer. Quase! Mas mesmo se tratando de um roteiro medieval que leva a subidas e descidas abruptas não há desculpa para não melhorar e investir mais nestes primitivos acessos carregados de história. É impressionante que esta cidade nem disponha de um simples albergue no seu centro histórico ou revele as antigas casas que serviram de apoio aos peregrinos em épocas recuadas! (Os albergues existentes estão distantes e não junto ao antigo Caminho medieval)

Ao deixar o Centro Histórico poucos saberão por onde prosseguir se desejarem acompanhar o velho caminho seguido pelos peregrinos de outrora. Deixam de existir indicações válidas, bem visíveis, e não há nenhuma placa ou nenhuma linha ou representação urbana com um indício de continuidade clara (se as existiram, entretanto desapareceram). Este problema cruza-se com a ausência de roteiros históricos que poderiam ser sinalizados nos próprios passeios – quem os organiza serve-se da imaginação e conhecimentos que visitantes livres nunca teriam. Cruza-se igualmente com a ausência de uma nítida travessia pedestre destacada para atravessar todo o centro urbano (como poderia servir o eixo Rua Dr. Sousa Vitelo – Rua das Flores – Rua do Bonjardim, sendo ainda mais estendido), dotado de uma ciclovia e/ou de um tipo de calcetamento exclusivo. E cruza-se com a ausência de uma circular verde, como já foi debatida em tempos.

À direita, em cima, e à esquerda, em baixo: Além de não se ter dado prioridade a este secular roteiro em termos de reabilitação urbana, em vários casos a sinalética desvanece-se, comprovando o desinteresse e desmazelo de um munícipio que ainda não sabe - ou não quer - olhar a detalhes.

O Caminho para Santiago de Compostela é uma vergonha e confirma que as rotas pedonais não são prioridade numa cidade que já de si apresenta um urbanismo que ainda deixa muito a desejar para a própria circulação automóvel – é que se o futuro passa por libertar ainda mais o centro dos automóveis que não sejam públicos ou de residentes, os caminhos pedonais e as ciclovias têm de ganhar maior protagonismo. E quanto ao Caminho para Santiago em si, há que pensar realmente em colocar algumas placas ou qualquer outro tipo de sinalética bem mais interessante do que uma mera seta amarela nas paredes de antigos prédios que pode ser confundida como um rude acto de vandalismo. Vulgares azulejos com uma vieira pintada já poderiam fazer a diferença… mas isso é apenas um pequeno exemplo do muito que poderia ser feito.


Nota: Até agora, as indicações que temos é que a sinalética existente deve-se só e apenas a cidadãos anónimos e peregrinos que se preocupam em preservar e estimar este velho Caminho, receando que o vandalismo e a falta de interesse da Câmara acabe por sacrificá-lo e torná-lo irreconhecivel ou identificavel por outros peregrinos e turistas. É triste comprovar-se que ainda há casos em que cidadãos que com os poucos recursos que têm tentam fazer muito mais do que as autoridades competentes.


14/03/2016

Prédio Nº182 na Rua dos Mártires da Liberdade

Entre os vários edifícios que se podem encontrar na Rua dos Mártires da Liberdade, existe uma habitação que ocupa todo um prédio e cuja fachada se destaca da maioria. Trata-se do Nº182, um prédio dotado de uma certa elegância com uma fachada de granito cuja composição ecléctica se deixa influenciar pelas linhas de José Marques da Silva e pela arquitectura medieval – sobretudo a nível das janelas do primeiro piso, sobrepujadas por um arco gótico.

Este revivalismo medieval encontra ecos na arquitectura da época, principalmente entre as obras emblemáticas de maior destaque, mas não nos foi possível identificar até ao momento o arquitecto responsável pelo projecto deste prédio singular, embora não nos surpreendesse que fosse uma obra de Francisco de Oliveira Ferreira (1884 – 1957), discípulo do próprio José Marques da Silva e de José Teixeira Lopes, tendo projectado dentro do mesmo período o prédio do Club dos Fenianos Portuenses, de 1919.

Do pouco que sabemos sobre esta casa resta-nos o nome do seu primeiro proprietário, Joaquim Ferreira da Costa, que a mandou construir em 1918 para nela habitar. Com uma fachada quase inteiramente coberta de granito, cuja leveza é mais assegurada pelas janelas e pela presença de arcos, sobretudo o que rasga o segundo piso e é apoiado por uma coluna dórica e dispõe de uma balaustrada, quase passa despercebido o curto painel de azulejos azuis e brancos com elementos vegetalistas que podemos encontrar noutros tons noutras moradias e prédios do início do século XX espalhados pela cidade do Porto, que não seguem apenas as linhas da Arte Nova, mas que representam de forma inequívoca o Green-Man com a fidelidade de uma linha revivalista gótica presente noutros elementos decorativos da arquitectura da cidade que permaneceu viva e adaptada a novas correntes estilísticas. 

10/03/2016

O Monumento ao Empresário

É de salientar que as obras do escultor José Rodrigues na cidade do Porto nem sempre tiveram a valorização merecida e que algumas sofreram verdadeiros atentados. A «Anja» dos Clérigos na Praça de Lisboa foi roubada e seriamente danificada em 2006 para ser vendida como sucata antes de ser recuperada, a Pantera do Bessa chegou igualmente a ser vandalizada e o Monumento ao Empresário inaugurado em 1992, na praceta da ligação da Avenida do Marechal Gomes da Costa à Avenida da Boavista, não só foi vandalizado como votado ao completo desprezo.

A Câmara Municipal, actualmente mais aberta à cultura e à valorização da arte urbana, já manifestou o seu interesse em reabilitar a Anja e devolvê-la ao espaço público onde se encontrava, assim como em recuperar o Monumento ao Empresário, mas há aqui várias questões que se colocam: A primeira diz respeito ao como salvaguardar este monumento do vandalismo, a segunda diz respeito ao espaço onde está inserido (deverá ser intervencionado igualmente ou modificado para garantir um maior distanciamento do contacto dos cidadãos com a obra ou não?) e a terceira diz respeito ao material em que foi executado – há que reconhecer, o vidro é um material nobre que confere um dado valor estético ao monumento, mas… O que é que impede de estar sujeito a ser quebrado consoante o arremesso de pedras e garrafas por parte de vândalos?

Muito gostaríamos de ver reabilitado o Monumento ao Empresário, mas estas questões têm de ser bem esclarecidas antes de se pensar em pura e simplesmente recuperá-lo para voltar a estar exposto a um dos principais males que sofre o património da cidade. 

08/03/2016

Largo do Camarão



Há locais e arruamentos na cidade do Porto tão singulares quanto típicas, que se demarcam pelas suas histórias e pelas memórias de cidadãos, cidadãos esses muitas das vezes anónimos, mas que se demarcam pela vontade em dar voz – e alma! – aos acontecimentos que marcaram lugares nesta cidade que mereciam ser mais bem preservados e reconhecidos que actualmente são encarados com uma tristeza nostálgica por aqueles que os conheceram em tempos de maior actividade e animação, quando a desertificação do centro urbano ainda era ficção científica.

Há muita coisa que gostaríamos de contar e relatar sobre o Largo do Camarão, principalmente naquilo que se basearia em relatos vivos de quem já aqui residiu ou quem se lembra de como era outrora, quando não era ocupado por tantos veículos automóveis, quando as crianças da zona brincavam no exterior ou jogavam futebol (curiosamente o termo mais adequado é quando «jogavam à bola»), ou quando a vizinhança se encontrava após um dia de trabalho e conversavam ou ainda se reuniam para ir ao S. João às Fontainhas entre outras centenas de ditos e histórias que marcaram este lugar. Infelizmente, por mais extensivo que fossemos, seria difícil ser justo para quem ainda pretende incluir uma memória ou um acontecimento neste local – só tudo o que envolve o seu passado e a dos moradores dava para ocupar centenas de páginas de um blogue (e não, não estamos a exagerar).

Já há muito que estávamos para descrever o Largo do Camarão, cuja toponímia até é bem conhecida: um dos seus mais distintos moradores durante o século XVII era Manuel Gonçalves, de alcunha Camarão, nome que veio a prevalecer para identificar o local. E tanto assim era que o Recolhimento das Viúvas Pobres de Nossa Senhora das Dores que ali foi fundado no século XIX ficou popularmente conhecido por Recolhimento do Camarão. 

Ao longo dos tempos o largo foi sofrendo alterações e parte dos prédios ali existentes, que datam então da época em que a cidade se expandiu fora de muralhas, sobretudo entre os séculos XVII – XVIII, acabaram por ser demolidos para dar origem a novas edificações (tanto assim que há registos que o mesmo tenha vindo a acontecer durante o século XIX e inícios do século XX). No entanto, não podemos deixar de frisar o conjunto composto por quatro prédios típicos com vários sinais de degradação que se encontram neste largo. O seu estado deixa muito a desejar… 

07/03/2016

Cine-Teatro de Ermesinde



Numa rua estreita que não se situa muito longe do centro de Ermesinde situa-se um dos edifícios mais imponentes da cidade que teve uma destacada importância cultural durante a segunda metade do século XX. Trata-se do seu Cine-Teatro local, que apesar de passar um pouco despercebido, ainda tem uma dada relevância para a história da cidade.

Existe a referência à existência de um Cine-Teatro de Ermesinde pelo menos desde os anos 20 do século anterior, sobretudo porque veio a ser palco das actuações da União Dramática Beneficente de Sá, fundada em 1929. Mas essa referência não diz de certeza absoluta respeito a este edifício de betão que hoje se encontra devoluto. Apesar da inexistência de informações relativamente ao período em que foi erguido ou quem foi o seu arquitecto, não é difícil reconhecer uma linguagem própria que acompanha o rigor do Português Suave, o que nos leva a especular, sem certezas, que terá sido erguido entre os anos 50 – 60 do século XX; possivelmente até poderá ser anterior, mas estimamos que a nossa margem de erro não é grande. (E não é errado acusar aqui a presença de uma linguagem Art Deco austera que é mais típica dos anos 40, mas que foi adaptada e combinada formalmente com a arquitectura portuguesa característica do Estado Novo, verificando-se exemplos que se prolongam para lá dessa década).



Gostaríamos de revelar mais sobre o Cine-Teatro de Ermesinde, e é possivelmente que futuramente venhamos a descobrir mais, mas independentemente da sua origem, que acompanhou certamente a procura crescente da população local pelas artes do espectáculo e sobretudo pelo cinema, podemos afirmar que esteve em funcionamento até meados dos anos 70, explorado por Cunha Reis. Após a sua morte, o seu filho foi obrigado a encerrá-lo mediante a quebra da procura da projecção de filmes e com a vulgarização e popularização do vídeo – um fenómeno que afectou muitos cine-teatros de funções idênticas espalhados pelo país. Encontra-se abandonado desde então.

Em tempos, a Câmara Municipal de Valongo, concelho ao qual pertence a cidade de Ermesinde, tencionava adquirir o edifício para requalificá-lo e restituir-lhe algumas das suas funções similares, procurando devolver à cidade um monumento com um dado valor cultural, mas com a abertura do Maiashopping nos anos 90 com onze salas de cinema tão perto do centro da cidade esse plano foi definitivamente abandonado.

03/03/2016

Uma Moradia por detrás de Um Portão na Rua do Barão de Nova Sintra

Nem sempre o património que é de todos está acessível; e nem sempre tal se deve a motivos de segurança ou de zelo – em muitas situações o que se passa é mesmo o oposto! Há património de tal modo votado ao desprezo que os acessos e o mato que o envolvem não permitem mesmo que ninguém se aproxime para admirá-lo ou reconhecê-lo.

A moradia que se encontra por detrás de um portão com um interessante gradeamento enferrujado na Rua do Barão de Nova Sintra é disso um exemplo. Há muito que o mato cresceu de tal maneira que envolve completamente uma moradia histórica que, por estranho que pareça, também já esteve classificada e foi reconhecida como património municipal (nem temos a certeza se ainda mantém o mesmo estatuto). Poucos adivinharão que por detrás deste portão encontra-se uma ampla propriedade que se estende até à Travessa de Nova Sintra e à Travessa da China.

Noutros tempos, o que é hoje uma considerável extensão de mato que cresce de ano para ano descontroladamente, situava-se não só a moradia forrada a radiantes azulejos azuis do industrial António Dias Pereira como um armazém de cal, gesso e outros materiais de construção que funcionou entre os finais do século XIX e inícios do século XX. Do que sabemos sobre a moradia, completamente submersa pela vegetação, podemos descrever que se encontra muito danificada e que uma queda de uma árvore há cerca de 10 anos atrás causou-lhe estragos consideráveis. Tendo em conta o estado de abandono que já se encontra há algumas décadas, é provável que assim se mantenha durante os próximos tempos.

02/03/2016

EIF - Empresa Industrial do Freixo



O edifício industrial de betão que actualmente podemos reconhecer a norte do complexo da Central Termo-Eléctrica do Freixo está relacionado com a mesma, embora tenha servido um propósito diferente, antes se relacionando com a indústria química. 

Data de 1947 e foi construído pela UEP (União Eléctrica Portuguesa) para aproveitar o excedente de energia produzida que já se vinha a assinalar desde meados dos anos 30. Esta fábrica, então designada por Empresa Industrial do Freixo, para se distinguir do restante complexo próximo, aproveitou os excedentes de energia eléctrica para produzir carboneto de cálcio e de ferro silício. O carboneto de cálcio é um composto que tem várias aplicações industriais, mas nesta época servia sobretudo para a produção de gás acetileno, que era muito utilizado em lâmpadas. O ferro silício é um material muito necessário em fundições.

Ao escoar os excedentes de produção de energia eléctrica para esta fábrica, que para produzir os elementos que aqui assinalamos teria de dispor de muita energia, a UEP saía muito beneficiada da EIF. A fábrica dispunha de dois fornos distintos: um para produção de cal e outro para obter o carboneto de cálcio, não necessitando mais de que algumas dezenas de operários para produzir continuamente. Deixou de funcionar em 1974 e desde então permaneceu abandonada. 

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