16/03/2016

Prédio Nºs 23 - 27 na Rua Correia de Sá

Aquela que é hoje a Rua Correia de Sá, com ligação à Avenida da Boavista, era outrora parte do local conhecido como Lugar da Fonte da Moura e existia uma linha de caminho-de-ferro bem próxima com ligação à Foz que permitiria localizar com maior precisão esta artéria ainda por baptizar no início do século XX.

Numa zona caracterizada por moradias burguesas da alta classe média ou até mesmo da classe alta, este prédio foi erguido sem grandes pretensões, sendo antes fiel às mesmas linhas do típico casario do Porto que podemos reconhecer desta época. A sua construção data de 1914 e o seu primeiro proprietário foi Benjamim Alfredo Amorim, que adquiriu o lote um ano antes. Existiu um primeiro projecto datado de 1913 entregue ao mestre-de-obras José Joaquim de Carvalho, mas o proprietário não o apreciou e optaria por alterá-lo.

O prédio que hoje reconhecemos é simétrico, possuí duas entradas para duas habitações separadas, como era típico da época (embora não tenhamos a certeza se acabou por servir esse propósito), apesar de estreitas, e tem apenas dois pisos, mais uma época divisão acrescentada nas águas furtadas, que não ocupada muito mais do que a largura de uma vulgar janela. São os azulejos vermelhos que lhe dão maior vivacidade. Já perdeu a sua varanda em ferro forjada e boa parte dos azulejos que revestem a sua fachada, sendo vísiveis os estragos que contribuem para a sua degradação, mas ainda assim mantém uma certa graça e causa curiosidade, destacando-se numa rua composta por edíficios que datam sobretudo de décadas posteriores.

15/03/2016

O Caminho de Santiago é uma Vergonha!
























Em cima: uma rara representação de uma vieira a indicar o caminho medieval para Santiago de Compostela na zona da Sé do Porto (tão rara que não encontramos mais nenhuma no caminho do centro histórico).

Todos aqueles que se interessam pelo Centro Histórico do Porto e pela sua valorização, sobretudo pela área classificada pela UNESCO, não pode deixar de ignorar a crua verdade de que embora muito tenha melhorado nos últimos anos ainda há muitos aspectos que ainda deixam a desejar. Não se trata só de melhorar em matérias de reabilitação e ambientais, mas igualmente no que toca às vias de circulação e acesso.

O condicionamento do trânsito na Rua das Flores pode ter sido uma melhoria válida e um primeiro passo nesse sentido, mas não faltam outras artérias a necessitar urgentemente de maior atenção e de intervenção por parte do poder local – principalmente quando falamos de artérias que atraem turistas e que estão intimamente ligadas à história da cidade ou que oferecem um potencial único que não está devidamente aproveitado. É que um dos mais curiosos exemplos diz respeito ao Caminho para Santiago de Compostela que pode ser iniciado na Ribeira ou na Sé Catedral do Porto e passa por Vitória; já é estranho que o município não se organize com outros (principalmente com o de Matosinhos, que ainda desvaloriza também a rota litoral do Caminho para Santiago) para melhorar uma via ideal para peregrinos ou meros caminhantes, como despreza em absoluto a sinalética que deveria ser crucial para orientar o visitante.


Mais uma seta na zona da Sé: um parco esforço de sinalética, que embora seja recorrente nos caminhos para Santiago, não ilustra o melhor que se pode fazer para dignificar uma cidade histórica como o Porto.

A sinalética em alguns pontos quase não é reconhecida – resume-se a uma seta amarela pintada por uma vulgar lata de tinta (esperemos que não tenha sido a Câmara a fazê-lo, embora isso, por outro lado, também nos preocupa). Este desleixo quase dá ideia de que não há mais a fazer. Quase! Mas mesmo se tratando de um roteiro medieval que leva a subidas e descidas abruptas não há desculpa para não melhorar e investir mais nestes primitivos acessos carregados de história. É impressionante que esta cidade nem disponha de um simples albergue no seu centro histórico ou revele as antigas casas que serviram de apoio aos peregrinos em épocas recuadas! (Os albergues existentes estão distantes e não junto ao antigo Caminho medieval)

Ao deixar o Centro Histórico poucos saberão por onde prosseguir se desejarem acompanhar o velho caminho seguido pelos peregrinos de outrora. Deixam de existir indicações válidas, bem visíveis, e não há nenhuma placa ou nenhuma linha ou representação urbana com um indício de continuidade clara (se as existiram, entretanto desapareceram). Este problema cruza-se com a ausência de roteiros históricos que poderiam ser sinalizados nos próprios passeios – quem os organiza serve-se da imaginação e conhecimentos que visitantes livres nunca teriam. Cruza-se igualmente com a ausência de uma nítida travessia pedestre destacada para atravessar todo o centro urbano (como poderia servir o eixo Rua Dr. Sousa Vitelo – Rua das Flores – Rua do Bonjardim, sendo ainda mais estendido), dotado de uma ciclovia e/ou de um tipo de calcetamento exclusivo. E cruza-se com a ausência de uma circular verde, como já foi debatida em tempos.

À direita, em cima, e à esquerda, em baixo: Além de não se ter dado prioridade a este secular roteiro em termos de reabilitação urbana, em vários casos a sinalética desvanece-se, comprovando o desinteresse e desmazelo de um munícipio que ainda não sabe - ou não quer - olhar a detalhes.

O Caminho para Santiago de Compostela é uma vergonha e confirma que as rotas pedonais não são prioridade numa cidade que já de si apresenta um urbanismo que ainda deixa muito a desejar para a própria circulação automóvel – é que se o futuro passa por libertar ainda mais o centro dos automóveis que não sejam públicos ou de residentes, os caminhos pedonais e as ciclovias têm de ganhar maior protagonismo. E quanto ao Caminho para Santiago em si, há que pensar realmente em colocar algumas placas ou qualquer outro tipo de sinalética bem mais interessante do que uma mera seta amarela nas paredes de antigos prédios que pode ser confundida como um rude acto de vandalismo. Vulgares azulejos com uma vieira pintada já poderiam fazer a diferença… mas isso é apenas um pequeno exemplo do muito que poderia ser feito.


Nota: Até agora, as indicações que temos é que a sinalética existente deve-se só e apenas a cidadãos anónimos e peregrinos que se preocupam em preservar e estimar este velho Caminho, receando que o vandalismo e a falta de interesse da Câmara acabe por sacrificá-lo e torná-lo irreconhecivel ou identificavel por outros peregrinos e turistas. É triste comprovar-se que ainda há casos em que cidadãos que com os poucos recursos que têm tentam fazer muito mais do que as autoridades competentes.


14/03/2016

Prédio Nº182 na Rua dos Mártires da Liberdade

Entre os vários edifícios que se podem encontrar na Rua dos Mártires da Liberdade, existe uma habitação que ocupa todo um prédio e cuja fachada se destaca da maioria. Trata-se do Nº182, um prédio dotado de uma certa elegância com uma fachada de granito cuja composição ecléctica se deixa influenciar pelas linhas de José Marques da Silva e pela arquitectura medieval – sobretudo a nível das janelas do primeiro piso, sobrepujadas por um arco gótico.

Este revivalismo medieval encontra ecos na arquitectura da época, principalmente entre as obras emblemáticas de maior destaque, mas não nos foi possível identificar até ao momento o arquitecto responsável pelo projecto deste prédio singular, embora não nos surpreendesse que fosse uma obra de Francisco de Oliveira Ferreira (1884 – 1957), discípulo do próprio José Marques da Silva e de José Teixeira Lopes, tendo projectado dentro do mesmo período o prédio do Club dos Fenianos Portuenses, de 1919.

Do pouco que sabemos sobre esta casa resta-nos o nome do seu primeiro proprietário, Joaquim Ferreira da Costa, que a mandou construir em 1918 para nela habitar. Com uma fachada quase inteiramente coberta de granito, cuja leveza é mais assegurada pelas janelas e pela presença de arcos, sobretudo o que rasga o segundo piso e é apoiado por uma coluna dórica e dispõe de uma balaustrada, quase passa despercebido o curto painel de azulejos azuis e brancos com elementos vegetalistas que podemos encontrar noutros tons noutras moradias e prédios do início do século XX espalhados pela cidade do Porto, que não seguem apenas as linhas da Arte Nova, mas que representam de forma inequívoca o Green-Man com a fidelidade de uma linha revivalista gótica presente noutros elementos decorativos da arquitectura da cidade que permaneceu viva e adaptada a novas correntes estilísticas. 

10/03/2016

O Monumento ao Empresário

É de salientar que as obras do escultor José Rodrigues na cidade do Porto nem sempre tiveram a valorização merecida e que algumas sofreram verdadeiros atentados. A «Anja» dos Clérigos na Praça de Lisboa foi roubada e seriamente danificada em 2006 para ser vendida como sucata antes de ser recuperada, a Pantera do Bessa chegou igualmente a ser vandalizada e o Monumento ao Empresário inaugurado em 1992, na praceta da ligação da Avenida do Marechal Gomes da Costa à Avenida da Boavista, não só foi vandalizado como votado ao completo desprezo.

A Câmara Municipal, actualmente mais aberta à cultura e à valorização da arte urbana, já manifestou o seu interesse em reabilitar a Anja e devolvê-la ao espaço público onde se encontrava, assim como em recuperar o Monumento ao Empresário, mas há aqui várias questões que se colocam: A primeira diz respeito ao como salvaguardar este monumento do vandalismo, a segunda diz respeito ao espaço onde está inserido (deverá ser intervencionado igualmente ou modificado para garantir um maior distanciamento do contacto dos cidadãos com a obra ou não?) e a terceira diz respeito ao material em que foi executado – há que reconhecer, o vidro é um material nobre que confere um dado valor estético ao monumento, mas… O que é que impede de estar sujeito a ser quebrado consoante o arremesso de pedras e garrafas por parte de vândalos?

Muito gostaríamos de ver reabilitado o Monumento ao Empresário, mas estas questões têm de ser bem esclarecidas antes de se pensar em pura e simplesmente recuperá-lo para voltar a estar exposto a um dos principais males que sofre o património da cidade. 

08/03/2016

Largo do Camarão



Há locais e arruamentos na cidade do Porto tão singulares quanto típicas, que se demarcam pelas suas histórias e pelas memórias de cidadãos, cidadãos esses muitas das vezes anónimos, mas que se demarcam pela vontade em dar voz – e alma! – aos acontecimentos que marcaram lugares nesta cidade que mereciam ser mais bem preservados e reconhecidos que actualmente são encarados com uma tristeza nostálgica por aqueles que os conheceram em tempos de maior actividade e animação, quando a desertificação do centro urbano ainda era ficção científica.

Há muita coisa que gostaríamos de contar e relatar sobre o Largo do Camarão, principalmente naquilo que se basearia em relatos vivos de quem já aqui residiu ou quem se lembra de como era outrora, quando não era ocupado por tantos veículos automóveis, quando as crianças da zona brincavam no exterior ou jogavam futebol (curiosamente o termo mais adequado é quando «jogavam à bola»), ou quando a vizinhança se encontrava após um dia de trabalho e conversavam ou ainda se reuniam para ir ao S. João às Fontainhas entre outras centenas de ditos e histórias que marcaram este lugar. Infelizmente, por mais extensivo que fossemos, seria difícil ser justo para quem ainda pretende incluir uma memória ou um acontecimento neste local – só tudo o que envolve o seu passado e a dos moradores dava para ocupar centenas de páginas de um blogue (e não, não estamos a exagerar).

Já há muito que estávamos para descrever o Largo do Camarão, cuja toponímia até é bem conhecida: um dos seus mais distintos moradores durante o século XVII era Manuel Gonçalves, de alcunha Camarão, nome que veio a prevalecer para identificar o local. E tanto assim era que o Recolhimento das Viúvas Pobres de Nossa Senhora das Dores que ali foi fundado no século XIX ficou popularmente conhecido por Recolhimento do Camarão. 

Ao longo dos tempos o largo foi sofrendo alterações e parte dos prédios ali existentes, que datam então da época em que a cidade se expandiu fora de muralhas, sobretudo entre os séculos XVII – XVIII, acabaram por ser demolidos para dar origem a novas edificações (tanto assim que há registos que o mesmo tenha vindo a acontecer durante o século XIX e inícios do século XX). No entanto, não podemos deixar de frisar o conjunto composto por quatro prédios típicos com vários sinais de degradação que se encontram neste largo. O seu estado deixa muito a desejar… 

07/03/2016

Cine-Teatro de Ermesinde



Numa rua estreita que não se situa muito longe do centro de Ermesinde situa-se um dos edifícios mais imponentes da cidade que teve uma destacada importância cultural durante a segunda metade do século XX. Trata-se do seu Cine-Teatro local, que apesar de passar um pouco despercebido, ainda tem uma dada relevância para a história da cidade.

Existe a referência à existência de um Cine-Teatro de Ermesinde pelo menos desde os anos 20 do século anterior, sobretudo porque veio a ser palco das actuações da União Dramática Beneficente de Sá, fundada em 1929. Mas essa referência não diz de certeza absoluta respeito a este edifício de betão que hoje se encontra devoluto. Apesar da inexistência de informações relativamente ao período em que foi erguido ou quem foi o seu arquitecto, não é difícil reconhecer uma linguagem própria que acompanha o rigor do Português Suave, o que nos leva a especular, sem certezas, que terá sido erguido entre os anos 50 – 60 do século XX; possivelmente até poderá ser anterior, mas estimamos que a nossa margem de erro não é grande. (E não é errado acusar aqui a presença de uma linguagem Art Deco austera que é mais típica dos anos 40, mas que foi adaptada e combinada formalmente com a arquitectura portuguesa característica do Estado Novo, verificando-se exemplos que se prolongam para lá dessa década).



Gostaríamos de revelar mais sobre o Cine-Teatro de Ermesinde, e é possivelmente que futuramente venhamos a descobrir mais, mas independentemente da sua origem, que acompanhou certamente a procura crescente da população local pelas artes do espectáculo e sobretudo pelo cinema, podemos afirmar que esteve em funcionamento até meados dos anos 70, explorado por Cunha Reis. Após a sua morte, o seu filho foi obrigado a encerrá-lo mediante a quebra da procura da projecção de filmes e com a vulgarização e popularização do vídeo – um fenómeno que afectou muitos cine-teatros de funções idênticas espalhados pelo país. Encontra-se abandonado desde então.

Em tempos, a Câmara Municipal de Valongo, concelho ao qual pertence a cidade de Ermesinde, tencionava adquirir o edifício para requalificá-lo e restituir-lhe algumas das suas funções similares, procurando devolver à cidade um monumento com um dado valor cultural, mas com a abertura do Maiashopping nos anos 90 com onze salas de cinema tão perto do centro da cidade esse plano foi definitivamente abandonado.

03/03/2016

Uma Moradia por detrás de Um Portão na Rua do Barão de Nova Sintra

Nem sempre o património que é de todos está acessível; e nem sempre tal se deve a motivos de segurança ou de zelo – em muitas situações o que se passa é mesmo o oposto! Há património de tal modo votado ao desprezo que os acessos e o mato que o envolvem não permitem mesmo que ninguém se aproxime para admirá-lo ou reconhecê-lo.

A moradia que se encontra por detrás de um portão com um interessante gradeamento enferrujado na Rua do Barão de Nova Sintra é disso um exemplo. Há muito que o mato cresceu de tal maneira que envolve completamente uma moradia histórica que, por estranho que pareça, também já esteve classificada e foi reconhecida como património municipal (nem temos a certeza se ainda mantém o mesmo estatuto). Poucos adivinharão que por detrás deste portão encontra-se uma ampla propriedade que se estende até à Travessa de Nova Sintra e à Travessa da China.

Noutros tempos, o que é hoje uma considerável extensão de mato que cresce de ano para ano descontroladamente, situava-se não só a moradia forrada a radiantes azulejos azuis do industrial António Dias Pereira como um armazém de cal, gesso e outros materiais de construção que funcionou entre os finais do século XIX e inícios do século XX. Do que sabemos sobre a moradia, completamente submersa pela vegetação, podemos descrever que se encontra muito danificada e que uma queda de uma árvore há cerca de 10 anos atrás causou-lhe estragos consideráveis. Tendo em conta o estado de abandono que já se encontra há algumas décadas, é provável que assim se mantenha durante os próximos tempos.

02/03/2016

EIF - Empresa Industrial do Freixo



O edifício industrial de betão que actualmente podemos reconhecer a norte do complexo da Central Termo-Eléctrica do Freixo está relacionado com a mesma, embora tenha servido um propósito diferente, antes se relacionando com a indústria química. 

Data de 1947 e foi construído pela UEP (União Eléctrica Portuguesa) para aproveitar o excedente de energia produzida que já se vinha a assinalar desde meados dos anos 30. Esta fábrica, então designada por Empresa Industrial do Freixo, para se distinguir do restante complexo próximo, aproveitou os excedentes de energia eléctrica para produzir carboneto de cálcio e de ferro silício. O carboneto de cálcio é um composto que tem várias aplicações industriais, mas nesta época servia sobretudo para a produção de gás acetileno, que era muito utilizado em lâmpadas. O ferro silício é um material muito necessário em fundições.

Ao escoar os excedentes de produção de energia eléctrica para esta fábrica, que para produzir os elementos que aqui assinalamos teria de dispor de muita energia, a UEP saía muito beneficiada da EIF. A fábrica dispunha de dois fornos distintos: um para produção de cal e outro para obter o carboneto de cálcio, não necessitando mais de que algumas dezenas de operários para produzir continuamente. Deixou de funcionar em 1974 e desde então permaneceu abandonada. 

01/03/2016

Central Termo-Eléctrica do Freixo



O local ocupado pelas ruínas da Central Termo-Eléctrica do Freixo esteve durante muitos anos na posse do Estado (a bem dizer, da REN/EDP) que, mesmo perante o seu desmantelamento e consequente desaproveitamento, teve sempre reticências em vendê-lo a privados, apesar do antigo interesse da antiga Mota & Companhia (actual Mota Engil) em adquiri-lo e do potencial notável que apresenta tendo em conta a vista privilegiada que detém sobre um dos mais assinaláveis meandros do rio Douro.

A origem desta Central Termo-Eléctrica abandonada data do início do século XX, mais precisamente do ano de 1919, quando a empresa espanhola Electra del Lima ergue a sua sub-estação nesta colina de Campanhã próximo à Rua do Freixo, no lugar de Rego-Lameiro. O primeiro edifício da subestação receptora e transformadora erguido pela empresa espanhola seria diminuto em relação ao complexo que se desenvolveria durante os anos seguintes em cooperação com a UEP (União Eléctrica Portuguesa, que estaria na origem da EDP), mas em 1922 já poderia ser reconhecido como um dos introdutores da linguagem Art Deco a par da Casa de Serralves (1925) que viria a definir a arquitectura das ampliações que se seguiriam (alguns reconhecerão, sem dúvida, também uma disposição ecléctica, se bem que estilizada, em combinação da Art Deco com elementos da arquitectura medieval).

Mais tarde, a partir de 1926, perante a vontade da UEP em erguer uma central térmica, foram erguidas a Casa das Caldeiras e a Casa das Máquinas, concluídas durante a primeira metade dos anos 30, acompanhando desse modo a expansão de distribuição de electricidade, em linha com o aumento de produção e da demanda de energia das indústrias têxteis, vidraceiras, cerâmicas e fundições (entre outras), não tendo sofrido muito com a crise que se iniciou em 1929. O complexo ampliado, que ostentava orgulhosamente o logotipo da União Eléctrica Portuguesa, também dispôs de uma Oficina de Montagem e Manutenção de Transformadores e do Edifício das Bombas (embora já existisse uma primitiva casa das bombas da Electra del Lima que aproveitava as águas do rio Douro). Hoje em dia só restam as ruínas da Casa das Máquinas e o Edifício das Bombas (junto à marginal), em linha com a arquitectura que definiu o diferente conjunto de blocos construtivos, segundo o harmonioso projecto de 1927 do engenheiro José Bernardo Corte Real.

O complexo foi actualizando-se ao longo das décadas que caracterizaram o Estado Novo, sobretudo a nível social, com a inclusão de um refeitório e de uma cozinha para os seus funcionários e de dispor de serviços médicos e apoios a partir dos anos 50, mas o seu mais significativo projecto de modernização deu-se a partir do início dos anos 70, com a introdução de novos equipamentos e de uma série de avanços tecnológicos, do qual resta também um edifício acrescentado durante essa época, já distinto devido à sua linguagem modernista. Convém ainda frisar que a primitiva central térmica já se encontrava desactivada desde os anos 60, mas os restantes edifícios ainda se encontravam em funcionamento e o complexo obteve algumas ampliações mesmo durante esta década, o que não impediu a demolição polémica da parte norte da fábrica aquando da sua modernização durante o ano de 1972 (o que é de lamentar), marcando o início do fim desta estação. 

No decorrer da Revolução de Abril de 1974, as principais empresas de electricidade foram nacionalizadas e incorporadas na EDP. Esta estação não sobreviveria durante muito mais tempo e viria a perder importância e a encerrar definitivamente a sua actividade. O que realmente lamentamos é que passados tantos anos ainda se encontre no mesmo estado, mesmo com a recente inclusão na ARU de Campanhã por iniciativa da Câmara Municipal do Porto, sem que entretanto se tenha dado maior valor ao património que representa e como poderia servir outros propósitos, passando pela área do comércio, de hotelaria ou até mesmo da habitação.

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