05/02/2016

Prédio Nº11 do Largo do Viriato

É lamentável que este prédio de habitação já se encontre abandonado e com sinais de degradação há tantos anos (embora não seja o pior caso) – tanto mais que foram muitos os esforços feitos para tentar vendê-lo. Um tanto austero e despojado, só se destacando pelos gradeamentos das estreitas varandas e o seu conjunto de três janelas no último piso, estreito e diferenciado, relembra alguns dos velhos prédios do final do século XVIII erguidos durante a Época dos Almadas, embora seja cem anos mais recente ("pós-almadino").

O prédio foi mandado construir por Manuel Joaquim de Araújo Costa em 1883, que nele habitou a partir dessa data. Não há muito mais a dizer sobre este homem para além de ter sido proprietário de outros prédios, arrendando os seus apartamentos – incluindo na Rua do Almada como o que ocupa os números 508-510-512-514, erguido em 1855 e que apresenta uma arquitectura semelhante. Mas Manuel Joaquim de Araújo Costa também se destaca por ter sido um dos membros fundadores do Club Portuense em 1857, dando-nos a comprovar que a sua área de actividade centrava-se muito naquela área da freguesia de Vitória em especial (que foi mais tarde ocupada pelo Palácio Conde de Vizela, pelo Hotel Infante Sagres e outros edifícios que na verdade fazem parte da actual zona da movida de uma forma geral).

Ruínas de Prédio-Fábrica na Rua da Bandeirinha



Do que resto do que outrora chegou a ser uma fábrica destinada a refinação de açúcar, torrefação de café e produção de chocolate é a sua bela fachada que dá conta de várias décadas de utilização (e provavelmente com propósitos diferentes) até cair no abandono. Não sabemos (ainda) a sua história recente; apenas de que está em ruínas «há uma dúzia de anos (?)» e que só passa despercebida por se situar na estreita e pouco frequentada Rua da Bandeirinha.

Apesar de tão pouco sabermos sobre o seu passado recente, conhecemos as suas origens. Antes de ser um prédio, com a actual configuração, foi na verdade um local ocupado por outros destinados a habitação. É preciso referenciar que esta rua tem séculos e uma ocupação muito antiga e assim o confirma a antiguidade de alguns edifícios presentes (séc. XVII – XVIII) e a história da freguesia de Miragaia, que revela a existência de habitações de pescadores e da população judaica neste arrabalde. No entanto, o passado mais remoto que conhecemos do terreno onde se situa o prédio em questão fala-nos de uma proprietária de nome Felismina Adelaide Rodrigues Aires de
Gouveia que em 1883 constrói aqui um primeiro prédio, cujos números indicam que seria bem mais estreito do que o actual (ou do que resta dele). Posteriormente, já em 1920 outro proprietário chamado Abel de Lacerda constrói outro prédio mesmo ao lado do mais antigo (erguido por Dona Felismina). Mas passados apenas três anos, em 1923, o empreendedor Tomás Augusto Ferreira é que adquire ambos os prédios e constrói sobre ambos o edifício que ocupará parte do antigo prédio de Dona Felismina e o de Abel de Lacerda, tencionando ali construir a sua fábrica. 

Como fachada de fábrica é sugestiva. Dá ideia de ser um palacete embelezado por alguns elementos vegetalistas de influência barroca que contrastam com a restante austeridade do edifício, contrária à opção de usar os mesmos detalhes em painéis de azulejos segundo a moda da Belle Époque (anterior à deste período de transição, que vai passar a incorporar uma linguagem mais severa, sem contudo abdicar de alguns ornamentos com toques de revivalismo, e abrir caminho à Art Deco). Mas é provável que a própria fachada tenha sido idealizada numa data posterior à instalação da própria fábrica e alguns registos comprovam que Tomás Ferreira alterou o seu projecto várias vezes entre 1923 e 1924, contando com o apoio do mestre-de-obras Justino de Fontes Santos - e sempre se referindo às suas alterações posteriores como «prédio» e não como fábrica.

03/02/2016

Casa Devoluta na Alameda de Basílio Teles


E no que toca a esta casa devoluta não sabemos dizer muito... Na verdade, o que poderíamos dizer é muito pouco, pois até causa impressão como é que um pequeno edíficio tão interessante (até bem mais do que muitos outros de tamanho considerável, como prédios e moradias) se encontra neste estado. Fica bem perto de um hostel, destaca-se pelo piso superior saliente (seguindo a arquitectura que caracterizava as típicas casas medievais) corrido por janelas como se fosse uma loggia, destaca-se pelos azulejos de cores quentes que cobrem a sua fachada, e destaca-se também pelo muro avançado de influência Art Deco com vários gradeamentos que simplesmente temos de caracterizar numa palavra já descrita - "interessantes".

Infelizmente ainda não identificamos o(s) seu(s) proprietário(s) original(ais), nem em que ano tenha sido construída (embora saibamos bem que o prédio ao lado, com quem partilha a Travessa do Roleto, data da segunda metade do séc. XIX). Mas continuaremos a investigar e esperamos descobrir mais... se entretanto ninguém tomar posse e reabilitar esta casa.

Hotel Mirassol em Miramar


Inaugurado em 1957 e orientado segundo as linhas do Português Suave, o Hotel Mirassol em frente à Praia de Miramar (Vila Nova de Gaia) foi uma das unidades hoteleiras com maior procura no Litoral Norte durante os finais dos anos 50 e no decorrer dos anos 60 e 70. Mas devido ao desordenamento urbanístico ocorrido em Miramar em torno do hotel – que até não é pior do que em muitos outros locais e freguesias de Vila Nova de Gaia – o lugar sofreu um dano paisagístico e, naturalmente, o Hotel Mirassol veio a perder o seu encanto, acabando por ser obrigado a encerrar nos anos 90.

Desde então, o Hotel permaneceu abandonado e tem vindo a degradar-se até hoje, estando à mercê do vandalismo. É certo que em 2002 parte do hotel e dos edifícios adjacentes de «mau gosto» foram demolidos, a zona marginal costeira foi intervencionada graças à Câmara Municipal de Gaia e desde então que se tem previsto recuperar o edifício principal do hotel para englobar vários projectos de aproveitamento daquela estância. 



O primeiro projecto de reaproveitamento previa adicionar um prédio com vários apartamentos de 4 estrelas para associados do Cofre de Providência de funcionários e agentes do Estado. Mas uma mudança na direcção, ocorrida entre 2006 e 2007 cancelou essa construção e decidiu vender o terreno. Em 2008 foi anunciada então o reaproveitamento do hotel pela Simoga, empresa detida por accionistas da Salvador Caetano. Mas em 2009 o terreno foi novamente vendido e passou para as mãos da AutoPartner Imobiliária SA que pertence à Salvador Caetano. E, desde então, apesar das várias intenções e promessas, o Hotel Mirassol continua a arruinar-se.

02/02/2016

3 Casas de Siza Vieira no Bairro de S. Victor



Já há alguns anos que se fala com interesse das intenções por parte da Escola Artística e Profissional do Porto em criar um laboratório para testar soluções de construção em casas devolutas para replicar a experiência em bairros sociais e ilhas – no fundo tomou como ponto de partida a Reabilitação Urbana e as interessantes experiências do Projecto SAAL (Serviço Apoio Ambulatório Local) que ocorreu entre 1974-76 para tentar corresponder aos problemas da habitação. Essa intenção está na origem da fundação do LAHB Social pelo professor Fernando Matos Rodrigues que funcionou em parceria com a Câmara Municipal do Porto em estudos pela reabilitação de várias ilhas situadas na freguesia do Bonfim.

Mas desde cedo que havia o intento de que o laboratório de habitação se situasse no Bairro de S. Victor. Não se tratava apenas de se aproximarem das circunstâncias da habitação local, no que correspondia à Associação dos Moradores de S. Victor, ou de estudar as ilhas mais próximas do bairro (nomeadamente na Rua de S. Victor), ou de analisar o projecto de Siza Vieira que corresponde ao conjunto de 12 casas desenhadas e erguidas pouco após o 25 de Abril. Tratava-se mais precisamente de reabilitar três casas que foram desenhadas pelo mesmo arquitecto, entre as ruas de S. Victor e das Fontainhas, que pertencem à Câmara Municipal do Porto mas que nunca foram habitadas.

É curioso que enquanto o município se preocupa (ou assim parece) com os problemas da habitação social e que tudo indica que a urgente procura da mesma tenha sido acentuada durante os últimos anos de crise ou que manifeste o interesse em reabilitar as ilhas ao assumir publicamente que tanto os espaços quanto os seus habitantes fazem parte do património do Porto, que estas três casas de Siza Vieira continuem devolutas e que nada do que tanto foi debatido tenha passado de meros intentos.

Fonte:


01/02/2016

Ruínas da Fábrica de Cerâmica do Senhor D’Além

São uma marca de um território há muito desprezado e negligenciado. As ruínas, bem visíveis do outro lado da margem do Rio Douro, fazem parte do conjunto de outras que se encontram em duas encostas paralelas: as ruínas das escarpas das Fontainhas e as da Serra do Pilar.

É triste pensar que só nos últimos anos é que ambos os municípios (Porto e Vila Nova de Gaia) decidiram valorizar estas encostas e procurar intervir no sentido de as tornar mais interessantes a nível paisagístico ou até de proteger o seu património – porque no estado em que ainda estão causam uma má imagem.

As ruínas são o que restam do que na realidade começou como um hospício do século XVIII fundado por monges carmelitas que resistiu até 1834, juntamente com a Ermida do Senhor D’Além (que foi reconstruída várias décadas mais tarde). Posteriormente é que se transformou na Fábrica de Cerâmica do Senhor D’Além, uma das muitas que operou em Vila Nova de Gaia, que funcionou até aos anos 20 do século XX. Desde então o complexo industrial permaneceu abandonado até se transformar num dos montes de ruínas mais conhecidos e notados junto ao Douro.

Mas tal como foi anunciado, já que dispõe de cais e de uma posição privilegiada, prevê-se a sua reabilitação para breve e poderá vir a ocupar um novo hotel.  

Capela do Senhor D’Além

A arruinada e pilhada Capela do Senhor D’Além, na Escarpa da Serra do Pilar em Vila Nova de Gaia, só não se encontra em pior situação devido à estima de alguns sem-abrigo pelo templo que desde há uns anos têm feito o possível para protegê-la. O seu estado não é apenas uma vergonha, é uma marca do triste país onde estamos e a incapacidade (de muitas entidades) em saber proteger ou preservar o seu património.

Construída em 1877 no mesmo local onde existiu outra ermida medieval do século XII que albergou uma imagem do Senhor Crucificado encontrada durante a construção do primitivo Mosteiro da Serra do Pilar e que veio mais tarde a albergar a imagem de S. Nicolau e S. Bartolomeu (a partir de 1500), chegou a fazer parte de um Hospício Carmelita que se acomodou no local já muito mais tarde até ser encerrado em 1832 na sequência da Lutas Liberais. O hospício foi ocupado passados poucos anos por uma fábrica de louça, mas actualmente não passa de um monte de ruínas – o mais descarado da margem sul do Douro junto a Vila Nova de Gaia.

Apesar de ter mantido o seu culto durante bastantes anos, acabou por ser encerrada em tempos recentes. Mas uma vez que a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia anunciou a sua intenção de lançar um concurso público para a consolidação da escarpa da Serra do Pilar e como o empresário Mário Ferreira (da Douro Azul) pretende erguer um hotel num dos edifícios em ruínas junto à Capela, está prevista a sua reabilitação para breve. 

30/01/2016

“Mapping our Tiles” – A Georreferenciação de Azulejos


É de longe um dos projectos mais interessantes que tivemos o prazer em acompanhar e promover. “Mapping our Tiles” é uma iniciativa de três engenheiras motivada pela valorização «e partilha da beleza dos azulejos das casas do Porto e de Portugal», caracterizando-se pela georreferenciação dos mesmos que liga diversos padrões às localizações físicas onde existem.

O site da iniciativa foi lançado em Novembro de 2015 e trata-se, evidentemente, de um projecto a longo prazo. A ideia conta com a colaboração de todos, tendo como ponto de partida que cada cidadão fotografe um determinado padrão de azulejos e tome nota da sua localização. Poderá enviar esse registo por email (mappingourtiles@bonjardim.pt) ou através da rede social Instagram (#mappingourtiles); posteriormente será feita a sua validação e a sua inscrição no mapa de Portugal que existe na internet.

É evidente que adoramos a iniciativa, uma vez que se tratar da valorização de um património que merece ser substancialmente promovido, pelo que
convidamos o maior número de cidadãos do Porto a colaborar. Fique a saber mais em:



Fonte:




29/01/2016

Hotéis a Mais no Porto?


O que à partida é óptimo para a economia da cidade (e sempre o reconhecemos) não está isento de riscos. Enquanto surgem cada vez mais hostels, pousadas e hotéis no Porto e os números do turismo crescem de ano para ano poucos parecem considerar o que se espera do outro lado da balança: a prudência questionará se não se está a gerar uma bolha e se a presença em demasia de hotéis não descaracterizará o Centro Histórico ou poderá ainda pôr em causa a sua classificação como Património da Humanidade.

Esta opinião, ou reflexão, avançada pela actual Secretária de Estado da Cultura cruza-se com outros problemas já diagnosticados e que as notícias foram dando conta mediante a “pressa” para transformar um centro histórico num espaço cosmopolita, mas despojado ou pouco conciliador com os seus habitantes originais. Este fenómeno começou com a reconstrução (não confundir com reabilitação) dos prédios no Largo dos Loios legitimamente censurada pelo ICOMOS em 2012. Vão-se suceder posteriormente as queixas de moradores da Zona da Movida relativamente à falta de legislação ou regulamentação dos bares e da noite que os perturbam durante os anos seguintes. E acresce-se a isso a pressão sentida pelos moradores e lojistas originais (Sé/Vitória/S. Nicolau) por parte dos proprietários para abandonarem as facções que ocupam para novos empreendimentos turísticos (sobretudo hostels), algo que já foi avançado numa notícia em Novembro de 2015. E agora surgem mais pedidos de licenciamento de hotéis na ordem das dezenas – e sobretudo na Ribeira!

É certo que já identificamos muitos palacetes e casas ou propriedades devolutas que davam para ser transformados em excelentes em pousadas ou hotéis, mas sobretudo fora do centro histórico classificado (antiga Fábrica de Cerâmica de Massarelos, as ruínas do Convento de Monchique, a Quinta dos Salgueiros nas Antas, etc.), mas tudo necessitará do seu equilíbrio. E se os próprios cidadãos do Porto, os seus costumes, as suas tradições, o seu “bairrismo” e a sua relação com a cidade também são parte do seu rico património, convém que estes não sejam esquecidos ou continuadamente renegados para segundo ou terceiro plano.

Para variar, é errado permitir que o “Efeito Donut” continue a acentuar-se no Porto (motivado até por vários motivos, mas este é mais um) e que a cidade continue a perder os seus cidadãos mais legítimos para as suas periferias. Habituamo-nos demasiado, enquanto sociedade, a pensar no presente; mas no futuro teremos de lidar com as possíveis consequências.

Fonte:

http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/cultura/hoteis-no-porto-podem-por-em-causa-patrimonio-da-humanidade

https://www.publico.pt/local/noticia/secretaria-de-estado-alertou-para-o-numero-de-hoteis-no-porto-e-apoiou-candidatura-das-caves-de-gaia-a-patrimonio-mundial-1721711

http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=4886842

Vale a Pena Comemorar o que Foi Destruído?



Em cima: Fotografia da Avenida dos Aliados nos Anos 60 do séc. XX. Nota-se a alternância de vegetação com a Calçada à Portuguesa.

Pode parecer um assunto digno de controvérsia, de debate ou até polémico, mas quando se está do lado de quem protege a integridade do Património e da valorização de espaços históricos, não se pode olhar para a actual Avenida dos Aliados e compará-la com a antiga sem se referir à mesma senão como um processo de destruição.

José Marques da Silva e Barry Parker idealizaram juntos uma das avenidas mais elegantes da Europa que se destacava não só por incluir edifícios emblemáticos que transmitiam o melhor do Eclectismo e das Beaux-Arts, como tiveram ainda a visão de valorizar o seu conjunto de praças revestidas com a típica Calçada à Portuguesa (que já está em extinção no Porto e foi retirada de todas as praças históricas). Não tiveram problemas em adicionar-lhes elementos verdes e bancos de jardim que convidavam as pessoas a passear e desfrutar do local.

Infelizmente, o que aconteceu durante uma época em que existia mais dinheiro para alterar praças do que para reabilitar edifícios classificados (e emblemáticos) devolutos, a Avenida dos Aliados sofreu um atentado de quem pouco sabe valorizar o que há de mais notável e exclusivo numa cidade. As justificações foram várias – mas podemos contra-argumentá-las (e eventualmente iremos fazê-lo mais tarde) – mas não convenceu todos. Na verdade, não convence historiadores, não convence artistas, não convence visitantes ou turistas que se lembram de como era a anterior avenida, não convence os que realmente apreciam grandes nomes da arquitectura portuense como José Marques da Silva, não convence arquitectos paisagistas ou urbanistas que dão maior importância à aprazibilidade e mais-valia ambiental do espaço, não convence metade (ou até mais) dos cidadãos do Porto.



Podemos apontar o erro a vários responsáveis, mas não vamos só citar o que é óbvio. As Praças Históricas já notabilizadas deveriam ser classificadas e protegidas! E a velha Calçada Portuguesa – que até pode ser reinventada – também deveria ser mais valorizada. O que vemos hoje na Avenida dos Aliados é uma paisagem estéril, pobre e incoerente com a sua própria história que uns teimarão em defender apenas porque se trata de um projecto de Siza Vieira e Souto Moura (esquecendo-se que os próprios arquitectos manifestaram o seu descontentamento quando a própria Câmara desconsiderou a colocação de mais árvores nas praças como intencionavam, nomeadamente carvalhos e bordos); mas se tivesse sido obra de alguém menos conhecido, maior teria sido o protesto e apontavam o que seria evidente.

É por isso que, tomando conhecimento de que a Fundação Marques da Silva e a Câmara Municipal do Porto assinalam no dia 1 de Fevereiro, pelas 19 horas, o centenário do lançamento da obra da Avenida dos Aliados somos levados a questionar: Vale a pena comemorar o que já foi destruído?

28/01/2016

Quinta e Palacete da Ponte da Pedra


Perto da antiga estrada romana que ligava a cidade do Porto (Cale) a Braga (Bracara Augusta) situa-se uma propriedade de campo secular que se estende até à margem do rio Leça, que é atravessado justamente pela velha ponte de pedra medieval de fundação romana mais conhecida por Ponte da Pedra, que daria o nome à quinta.

Mesmo que se presuma que a propriedade de campo possa ser muito mais antiga – tal como são muitas quintas existentes nos arredores do Porto – o palacete que a caracteriza data do século XVIII e foi conhecido durante décadas pelos habitantes de Leça de Balio por Palacete Oitocentista. É certo que mereceu maior atenção durante o século XIX, pois foi ampliado e funcionou como residencial durante essa altura e tornou-se o local predilecto de Camilo Castelo Branco para passar férias no Porto, uma vez que dispunha de praia fluvial e aprazíveis jardins ideais para o repouso ou para a inspiração de um escritor tão dedicado (não é difícil imaginar que possam ter sido intervencionados pela arte decorativa de Nicolau Nasoni no século anterior).



Também se consta que neste palacete se chegou a instalar o rei D. Miguel durante a guerra que travou com o seu irmão D. Pedro IV. Mais tarde, no início do século XX, a proprietária da Quinta da Ponte da Pedra doou-a ao Estado Português por não possuir herdeiros e o local veio a servir de albergue das pessoas idosas. Essa condição de albergue continuou até à revolução de 25 de Abril de 1974, quando os idosos foram recolhidos no Lar do Monte dos Burgos e o palacete ficou disponível para acomodar famílias retornadas das ex-colónias.

Infelizmente, os maus tratos verificados no palacete da Quinta da Ponte da Pedra já se sucedem desde a altura em que foram acomodadas as famílias de retornados, que não pouparam nem os seus jardins ao completo vandalismo que se estendeu até 2001, ano em que foi retirada a última família. Para piorar a situação do monumento, deflagrou um incêndio em 2005 que devastou grande parte do palacete.



Ainda hoje, apesar do conjunto de intenções da Câmara Municipal de Matosinhos para proteger a propriedade e reabilitá-la, o palacete e os edifícios adjacentes da quinta continuam devolutos, ensombrado uma área repleta de história e vital para a arqueologia e para o desenvolvimento cultural de Leça de Balio, que é o rio Leça e as áreas de proximidade do seu notável mosteiro, que se situa nas imediações.

Fábrica Têxtil Vaz Teixeira


Situa-se em S. Mamede Infesta, Matosinhos, mais uma relíquia dos tempos em que Portugal ainda dispunha de um maior desenvolvimento industrial e que o sector secundário era responsável pela criação e manutenção de milhares de empregos no concelho. Trata-se da antiga Fábrica Têxtil Vaz Teixeira.

O que poderia ser um “bom” monumento (parte do património, digamos assim) é actualmente um monte de ruínas – similar a tantas outras velhas e grandiosas fábricas têxteis que vieram a definhar até se extinguir.



Encontra-se no mesmo estado há cerca de dez anos, a marcar com um peso lúgubre a paisagem. Aliás, o pior golpe que terá sofrido foi desencadeado por um grande incêndio em meados de 2006 (poucos anos após fechar) que lançou o pânico na vizinhança. Devido a esse golpe que devastou a fábrica, encontra-se entaipada com paredes de tijolos, constituindo uma configuração insólita que combina o tijolo e o cinzento betão numa amálgama ainda exposta ao vandalismo. Mais uma lembrança amarga da decadência que atentou contra as manifestações de progresso de décadas anteriores…

Aldrabas do Século XIX

Alguns dos elementos mais característicos das típicas casas burguesas do Porto são as suas aldrabas de ferro, sendo as mais notáveis datadas da segunda metade do século XIX mas também do início do século XX. O Banco de Materiais da Câmara Municipal do Porto tem algumas – talvez demasiado poucas – em sua posse e, enquanto não se valoriza mais ou existe uma norma de protecção sobre este elemento, prevê-se que os melhores exemplos que já identificamos venham a desaparecer.

Uma das aldrabas mais conhecidas e até generalizadas são em forma de mão, que já foi designada erradamente de “Mão de Fátima”, pois tudo indica que sejam de influência francesa e provenientes do Romantismo, se bem que careçam de um estudo mais profundo para equiparar a outros exemplares espalhados pela Europa (e não só).
Por outro lado, temos as aldrabas em forma de rosto e, embora sejam mais raras e as que restam estejam em risco de se perderem, em relação às mesmas já temos menos dúvidas quanto à sua proveniência. São certamente influenciadas pelo Romantismo e apresentam detalhes revivalistas, tanto mais que várias, compostas de folhagens, são de inspiração gótica e em tudo se assemelham aos “Green-man” ou Máscaras de Folhagem que surgem em capitéis, frisos e mísulas das catedrais e igrejas medievais e até manuelinas (tardo-góticas). Uma vez que identificamos escassos exemplos de rostos com klaft (espécie de turbante ou toucado) egípcio, comprovam a teoria de que sejam mesmo inspirados pelo revivalismo próprio do período romântico.

Contudo, a maioria dos exemplares que encontramos, principalmente das peças de maior elaboração, encontram-se oxidados e a necessitar de um urgente restauro – o que prevemos que, infelizmente, não venha a acontecer. 

27/01/2016

Casa do Engenheiro Joaquim Gaudêncio Rodrigues Pacheco


No cruzamento da Rua de Diu e da Rua do Teatro, na Foz do Douro, quase passa despercebido um imóvel que vários definem como «prédio» ou «antigo teatro», pois afinal de contas terá existido um teatro na rua homónima e é natural, dadas às características únicas deste edifício, que se confundam com algo de mais notável que uma moradia. Mas trata-se realmente de uma moradia! E o antigo teatro que existiu na área situava-se junto a esta casa (muito provavelmente onde hoje se situa um prédio moderno da autoria do arquitecto Eduardo Souto Moura).


Apesar do conjunto de intenções e das várias intervenções que esta moradia tem tido no sentido de melhor preservá-la, principalmente a nível exterior, necessitará de obras mais profundas de reabilitação para estar pronta a ser habitada. Mas o pior tem sido no que toca à preservação dos painéis de azulejos – trata-se de um pequeno conjunto que se situa entre os melhores exemplares de cerâmica Arte Nova que se podem encontrar na área metropolitana do Porto e que nós atribuímos à Fábrica de Cerâmica das Devesas. Infelizmente, cerca de um terço dos azulejos já desapareceram e quase outro terço dos restantes apresentam danos que muito nos desagradam.

Além do seu valor a nível decorativo, a arquitectura da casa é elegante e denota um traço único pelas mãos do seu autor que, aliás, julgamos ser o seu primeiro proprietário: o engenheiro Joaquim Gaudêncio Rodrigues Pacheco (n. 1875), profissional a que temos de dar importância devido aos seus projectos a nível do alojamento operário e da Habitação Social, tendo seguido e acompanhado de perto as linhas programáticas do arquitecto José Marques da Silva (ver Nota no final). O proprietário, com apreço pelo detalhe e rigor, contou com o mestre-de-obras Licínio Teixeira Cardoso para construir esta moradia em 1910 mas, pouco satisfeito com o primeiro projecto, manda alterá-lo em 1912 consoante o seu próprio gosto. Só muito mais tarde, em 1923, nas traseiras do edifício, manda acrescentar uma garagem e é possível que várias alterações na casa decorram em linha com esta adição a partir dessa data, pois nesta secção já se reconhece uma influência Art Deco.


É precisamente nas traseiras desta casa, viradas para a Rua do Teatro que os danos e os sinais de abandono são mais visíveis. Lamentamos que assim seja - esta moradia é mais um pedaço de património da Foz do Douro que necessita de ser reconhecido... e bem protegido.


NOTA: Joaquim Gaudêncio Rodrigues Pacheco tornou-se engenheiro-chefe da 3ª Repartição da Câmara Municipal do Porto em 1909. Embora o seu papel como autor de importantes projectos na cidade ainda carecem de estudos mais profundos, alimentou-se a especulação entre vários investigadores de que poderia ser o verdadeiro autor (ou que tivesse de alguma forma contribuído) do antigo Matadouro Industrial de Campanhã e até da Escola Infantil do Passeio Alegre na Foz (inaugurada em 1916) inspirado pelas linhas de Marques da Silva, mas adicionando elementos mais “classicistas”, se bem que não tenhamos como o comprovar. Tal como o mais notável arquitecto da cidade do Porto, foi um pioneiro na área da Habitação Social: projectou o Bairro do Bonfim no Monte das Antas (inaugurado em 1904) e foi responsável pela Colónia Viterbo Campos na Arrábida (1916/17).

Farol da Senhora da Luz


Ficamos animados com a intenção de se reabilitar o antigo Farol de São Miguel-O-Anjo (séc. XVI) para continuar a lamentar a depreciação pelo velho Farol da Senhora da Luz da segunda metade do século XVIII.

Compreende-se o facto de estar vedado, uma vez que o local onde se situa ainda pertence à Marinha, colocando este farol na imediata categoria de Património do Estado, estando interdita a aproximação de turistas e curiosos ao espaço. O que não se compreende é não ser motivo de maior estima, pois os sinais de degradação e parca manutenção já são visíveis (esperemos que não piorem).

A história deste farol já é conhecida: Foi erguido segundo o alvará do Marquês de Pombal a 1 de Fevereiro de 1758 no alto do Monte da Luz onde existia já uma capela do século XVII consagrada a Nossa Senhora da Luz. Neste ponto com uma vista privilegiada, do qual é possível visualizar a foz do Douro e uma extensão do território litoral até Espinho, já há muito que se exigia a construção de um farol. O que também não deixa de ser interessante é a descoberta de gravuras rupestres entre os rochedos deste monte, o que indica a presença humana no local desde há tempos imemoriais. 

26/01/2016

Antiga Fábrica de Molduras “Santos & Irmãos”

Actualmente a Santos & Irmãos é conhecida como a mais antiga fábrica de molduras e douramentos ainda em actividade da cidade do Porto e até de Portugal. Afinal de contas, a data da sua fundação remonta ao ano de 1858.

Todavia, muitos ainda se enganam ao julgar que a Casa Nº470 da Rua do Bonjardim, visível no cruzamento com a Rua de Fernandes Tomás e com a característica montra corresponde ao exacto local onde os ditos irmãos começaram o seu negócio – já se haviam instalado na mesma rua muito antes, mais acima (tendo fundado uma primeira casa de abertura ao público na Travessa das Liceiras). É verdade que esta casa é bastante antiga e ainda não é certo se foi erguida no século XIX ou se data do século anterior, embora seja justo reafirmar que foi substancialmente alterada com o passar dos anos, principalmente no início do século XX, quando a firma decidiu usar a pequena casa para servir de oficina.

Não foram ainda descobertos documentos a comprovar que a Santos & Irmão (era então assim que era designada) se tenham instalado no Nº470 antes dos anos 20 do século XX, tendo intervencionado bastante na casa sobretudo no ano de 1922: Repararam escadas, soalhos e estuques e ainda retiraram todas as divisões da casa, tornando-a mais adequada a servir de oficina. O que é certo é que desde essa época em diante, com o passar das décadas, não deixou de ser uma das casas mais icónicas da Rua do Bonjardim e bem reconhecida pelo mérito do seu trabalho.

A pequena fábrica ainda é icónica, devido ao seu valor histórico – ou assim ainda a consideram alguns; no entanto, tamanho é o estado de desprezo a que chegou, na qual temos de acusar aqui uma situação de semiabandono, tendo-se transformado em mais um imóvel com os rudes sinais de degradação que não poupam sequer os painéis de azulejos que revestem desde há muito a sua fachada.


Nota 1: a Firma Santos & Irmão alega que se trata da mais antiga casa de molduras ainda em funcionamento do Mundo - mas trata-se de uma descrição que não podemos (ainda) comprovar nem sequer pôr em causa - sendo muito provável que seja verdade.

Nota 2: o blogue não pretende pôr em causa o bom nome ou o bom trabalho desta antiga firma cujo trabalho merece ser notabilizado e bem mais publicitado - o caso de uma casa em seu nome cujo estado nos indigna não merece ser confundido com a falta de esforços de uma firma que em todo caso procura sobreviver após décadas de desafios, elevada concorrência e anos de crise.

Nota 3: a perda da Firma Santos & Irmão será uma machadada tão elevada no que entendemos ser um bem patrimonial a proteger - um nome distinto e histórico entre as PME's ligadas à cidade - quanta a perda desta casa, pelo que a equipa Porto Sombrio só tem como único desejo ver as mesmas a manter intactos (ou a reastebelecer, no caso deste imóvel) o seu funcionamento e o seu mérito.

Fontanário de Ferro Fundido

Entre os elementos mais exclusivos da cidade do Porto encontram-se as velhas luminárias de ferro fundido da segunda metade do século XIX. Muitos ainda se encontram em diversos locais espalhados pela cidade e pela própria área metropolitana, nas urbanizações mais antigas. E não foram poucos os que já sofreram diversos restauros. Na zona da Foz do Douro, principalmente na Foz Velha e em várias ruas de Nevogilde é possivel identificar-se uns quantos, que dão um ambiente muito particular a uma área que inspira a determinados passeios pedrestes. 

É óbvio que estas luminárias já não funcionam a gás, e, conforme as diferentes alterações que foram sofrendo ao longo das décadas, também incorporaram vários tipos de lâmpadas, reconhecendo-se na actualidade o interesse em dotar estas luminárias com mais de um século de existência de lâmpadas novas, brancas, de "baixo consumo" - as robustas lâmpadas Tempore© de sódio de alta pressão, da Schreder®.

Mas entre estes elementos característicos, e bem mais exclusivos, também se destacam os velhos fontanários de ferro fundido da Foz com os quais se confundem devido à sua semelhança com os postes de iluminação mais altos e por terem sido forjados nas mesmas fábricas. Deixaram de ter a mesma função que teriam há décadas atrás, pois. Ainda assim, mantém-se alguns nos mesmos locais e apresentam fortes sinais de corrosão devido ao seu abandono. Os exemplares que localizamos são velhas relíquias da Fábrica de Fradelos e, no mínimo, deveriam ser protegidos ou mais estimados. Na verdade, se a ideia é que continuem desactivados, talvez o melhor mesmo fosse guardá-los no Banco de Materiais da Câmara Municipal do Porto, pois para todo o efeito são exemplares históricos interessantes de uma época superinteressante em termos de desenvolvimento industrial para a cidade.

É que através da degradação contínua e falta de estima por estes elementos somos levados a formular uma séria questão: Se um munícipio que tem como um dos principais objectivos zelar pelo seu património, como é que ignorando tantos detalhes pode ser responsável pela recuperação de maiores elementos? 

25/01/2016

Ruínas no Alto de Soutelo/Avenida da Carvalha


Desde há alguns anos que os habitantes do Alto de Soutelo, na freguesia de Fânzeres em Gondomar, lamentam o estado de declínio de uma casa em particular que sempre se destacou na Avenida da Carvalha – é comummente referida como a «antiga casa dos Capotes». Este nome chamou-nos a atenção, tanto mais que os descendentes desta família ainda são conhecidos por esta designação, tanto em Fânzeres como em Rio Tinto (já que o Alto de Soutelo ocupa a fronteira entre as duas freguesias e os “Capotes” foram donos de propriedades que ocupam esta área). Ainda hoje se debate entre os cidadãos se «Capote» é uma alcunha ou um nome próprio, embora a importância que este nome adquire para o nosso blogue diz respeito à história desta casa.

A importância da família para o local em questão corresponde precisamente ao “primeiro Capote”, comprovando-se, através de registos monográficos de Fânzeres, que se tratava da alcunha de José Martins Marques, que acabou por acompanhar os seus descendentes. José Martins Marques Capote era, por seu lado, herdeiro desta moradia que se presume ter sido erguida pelos seus pais algures entre os finais do século XIX e inícios do século XX, que já eram donos da fábrica ao lado, assinalada também por ruínas e um velho portão enferrujado, de acessórios para a indústria têxtil que já funcionava por volta de 1880. Mais tarde, em meados dos anos 30 do séc. XX, José Martins Marques instala na mesma avenida, em frente à sua casa, uma fábrica de produção de tecidos, expandindo o seu negócio, tornando-se uma das indústrias mais importantes do território.


Hoje em dia já não existe nenhuma fábrica ligada à indústria têxtil no alto da Avenida da Carvalha. A mais antiga, assinalada pelas ruínas, chegou a ocupar uma oficina automóvel durante os anos 80 que resistiu até aos primeiros anos do séc. XXI (e já nessa altura havia perdido todo o seu «brilho»). A fábrica em frente deixou de funcionar também e foi inteiramente demolida em 2004 para dar lugar a um prédio de habitação que dispõe de várias galerias comerciais. A bela moradia ainda resistiu… Ou foi resistindo, mediante o abandono (chegou-se a especular que seria motivo de litígio entre os herdeiros). Apesar do seu valor patrimonial, em termos históricos mas igualmente a nível de arquitectura e da azulejaria encontrava-se desclassificada (ainda se encontra!) e desprotegida, o que veio a facilitar o incêndio em Maio de 2013 que a destruiu e a transformasse no triste monumento que é hoje – um monumento em ruínas.


Mais recentemente, acompanhando o crescimento de mato incontrolado que agora envolve o que resta das ruínas, foram retirados (roubados?) os painéis de azulejos que eram visíveis no exterior da casa. Muito provavelmente são provenientes da antiga Fábrica de Cerâmica do Carvalhinho (mas não tivemos como o comprovar). Nas áreas superiores os painéis eram bastante coloridos, de influência Arte Nova, com composições de flores. Na fachada principal, virada para a avenida, destacavam-se como elo de ligação entre as janelas da cave e do primeiro piso painéis de azulejos policromados, azuis, com a representação das margens do Douro e de barcos rabelos.

A Santa Casa vai Investir 10 Milhões de Euros na Reabilitação Urbana



Muitos ainda se irão surpreender quando for revelado que já se estimou que a Santa Casa da Misericórdia do Porto possuía quase um terço dos imóveis da cidade, muitos dos quais no seu Centro Histórico. É um património inestimável e muito do qual serve precisamente para habitação.

Este investimento é uma boa notícia. Ao pretender candidatar mais de 50 imóveis ao programa Reabilitar para Arrendar gerido pela IHRU (Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana) e com um investimento na ordem dos 10 milhões de euros, estamos a falar na devolução de 300 habitações ao Porto. E a SCMP não pretende ficar por aqui, uma vez que detém um acordo com o governo a identificar e a apoiar outras instituições de carácter solidário detentoras de património dentro da área metropolitana para promover uma extensão deste programa.

O primeiro prédio da Santa Casa a entrar obras para ser reabilitado será o Nº98 da Rua Chã, destinado a habitação e comércio. Se as restantes reabilitações de casas pertencentes à instituição prosseguirem a bom ritmo, parte da paisagem urbana do Porto poderá mudar em pouco tempo… para melhor.

Fonte:

22/01/2016

Duas Distintas Casas na Avenida Fernão de Magalhães


Para quem costuma passear pela cidade do Porto, seja de carro ou a pé, não é invulgar encontrar duas casas ou dois prédios, lado a lado, abandonados e devolutos (até há exemplos de quatro ou cinco). Chamamos a esse fenómeno «Contágio Duplo» que, pela força de vários motivos que merecem ser estudados, leva-nos muitas vezes a confundir dois prédios como um só, principalmente quando a sua arquitectura não é muito distinta ou interpretamos dois casos distintos como se tratasse de algo único.

Esta confusão é justificável em muitos casos – ainda mais se julgarmos que duas casas ou dois prédios contíguos, idênticos, pertenceram ao mesmo proprietário. Mas no que toca ao exemplo de duas habitações na Avenida Fernão de Magalhães (os números 1207 e 1212 – 1216) não deveria haver margem para este género de equívocos. Cada uma apresenta diferentes características, já que são de épocas diferentes, embora não sejam completamente dissonantes entre si. Antes se diria que existiu uma procura de coerência no mais novo imóvel, que corresponde aos números 1212 e 1216.

Não sabemos quem foi o primeiro proprietário ou o arquitecto responsável pelo Nº1207, que apresenta alguns gradeamentos interessantes. A referência mais antiga desta casa refere uma proprietária, Eufrásia da Costa Gonçalves Vasconcelos, mas já é dos anos 30 e percebemos que fez obras de manutenção numa casa com já várias décadas de existência, datando possivelmente da mesma altura de abertura da Avenida Fernão de Magalhães (mas continuaremos a investigar para ver se descobrimos mais).



Em relação à casa com os números 1212 – 1216 dispomos de mais informação, que em termos históricos, principalmente no que toca à História da Arquitectura do Porto, é relevante. Um dos seus proprietários foi o arquitecto Mário Augusto Ferreira de Abreu, a cuja autoria correspondem alguns dos prédios mais notáveis da primeira metade do século XX situados na freguesia do Bonfim (e não só). O outro proprietário da casa (pois possuiu duas habitações separadas, ao contrário do que seria de esperar) era João Soares de Bastos, enquanto o principal técnico da obra foi o engenheiro Joaquim Mendes Jorge. Foi construída no ano de 1935 e reconhece-se uma ténue influência Art Deco (ou mais um vestígio severo) que podemos identificar noutros prédios da cidade, como os muito similares Nºs 32 – 36 da Rua de Brás Cubas da autoria de Mário Augusto Abreu, o que nos leva a concluir que esta casa foi desenhada precisamente pelo seu proprietário arquitecto. 

Artigos Populares

Envie as suas ideias!

Nome

Email *

Mensagem *