26/01/2016

Antiga Fábrica de Molduras “Santos & Irmãos”

Actualmente a Santos & Irmãos é conhecida como a mais antiga fábrica de molduras e douramentos ainda em actividade da cidade do Porto e até de Portugal. Afinal de contas, a data da sua fundação remonta ao ano de 1858.

Todavia, muitos ainda se enganam ao julgar que a Casa Nº470 da Rua do Bonjardim, visível no cruzamento com a Rua de Fernandes Tomás e com a característica montra corresponde ao exacto local onde os ditos irmãos começaram o seu negócio – já se haviam instalado na mesma rua muito antes, mais acima (tendo fundado uma primeira casa de abertura ao público na Travessa das Liceiras). É verdade que esta casa é bastante antiga e ainda não é certo se foi erguida no século XIX ou se data do século anterior, embora seja justo reafirmar que foi substancialmente alterada com o passar dos anos, principalmente no início do século XX, quando a firma decidiu usar a pequena casa para servir de oficina.

Não foram ainda descobertos documentos a comprovar que a Santos & Irmão (era então assim que era designada) se tenham instalado no Nº470 antes dos anos 20 do século XX, tendo intervencionado bastante na casa sobretudo no ano de 1922: Repararam escadas, soalhos e estuques e ainda retiraram todas as divisões da casa, tornando-a mais adequada a servir de oficina. O que é certo é que desde essa época em diante, com o passar das décadas, não deixou de ser uma das casas mais icónicas da Rua do Bonjardim e bem reconhecida pelo mérito do seu trabalho.

A pequena fábrica ainda é icónica, devido ao seu valor histórico – ou assim ainda a consideram alguns; no entanto, tamanho é o estado de desprezo a que chegou, na qual temos de acusar aqui uma situação de semiabandono, tendo-se transformado em mais um imóvel com os rudes sinais de degradação que não poupam sequer os painéis de azulejos que revestem desde há muito a sua fachada.


Nota 1: a Firma Santos & Irmão alega que se trata da mais antiga casa de molduras ainda em funcionamento do Mundo - mas trata-se de uma descrição que não podemos (ainda) comprovar nem sequer pôr em causa - sendo muito provável que seja verdade.

Nota 2: o blogue não pretende pôr em causa o bom nome ou o bom trabalho desta antiga firma cujo trabalho merece ser notabilizado e bem mais publicitado - o caso de uma casa em seu nome cujo estado nos indigna não merece ser confundido com a falta de esforços de uma firma que em todo caso procura sobreviver após décadas de desafios, elevada concorrência e anos de crise.

Nota 3: a perda da Firma Santos & Irmão será uma machadada tão elevada no que entendemos ser um bem patrimonial a proteger - um nome distinto e histórico entre as PME's ligadas à cidade - quanta a perda desta casa, pelo que a equipa Porto Sombrio só tem como único desejo ver as mesmas a manter intactos (ou a reastebelecer, no caso deste imóvel) o seu funcionamento e o seu mérito.

Fontanário de Ferro Fundido

Entre os elementos mais exclusivos da cidade do Porto encontram-se as velhas luminárias de ferro fundido da segunda metade do século XIX. Muitos ainda se encontram em diversos locais espalhados pela cidade e pela própria área metropolitana, nas urbanizações mais antigas. E não foram poucos os que já sofreram diversos restauros. Na zona da Foz do Douro, principalmente na Foz Velha e em várias ruas de Nevogilde é possivel identificar-se uns quantos, que dão um ambiente muito particular a uma área que inspira a determinados passeios pedrestes. 

É óbvio que estas luminárias já não funcionam a gás, e, conforme as diferentes alterações que foram sofrendo ao longo das décadas, também incorporaram vários tipos de lâmpadas, reconhecendo-se na actualidade o interesse em dotar estas luminárias com mais de um século de existência de lâmpadas novas, brancas, de "baixo consumo" - as robustas lâmpadas Tempore© de sódio de alta pressão, da Schreder®.

Mas entre estes elementos característicos, e bem mais exclusivos, também se destacam os velhos fontanários de ferro fundido da Foz com os quais se confundem devido à sua semelhança com os postes de iluminação mais altos e por terem sido forjados nas mesmas fábricas. Deixaram de ter a mesma função que teriam há décadas atrás, pois. Ainda assim, mantém-se alguns nos mesmos locais e apresentam fortes sinais de corrosão devido ao seu abandono. Os exemplares que localizamos são velhas relíquias da Fábrica de Fradelos e, no mínimo, deveriam ser protegidos ou mais estimados. Na verdade, se a ideia é que continuem desactivados, talvez o melhor mesmo fosse guardá-los no Banco de Materiais da Câmara Municipal do Porto, pois para todo o efeito são exemplares históricos interessantes de uma época superinteressante em termos de desenvolvimento industrial para a cidade.

É que através da degradação contínua e falta de estima por estes elementos somos levados a formular uma séria questão: Se um munícipio que tem como um dos principais objectivos zelar pelo seu património, como é que ignorando tantos detalhes pode ser responsável pela recuperação de maiores elementos? 

25/01/2016

Ruínas no Alto de Soutelo/Avenida da Carvalha


Desde há alguns anos que os habitantes do Alto de Soutelo, na freguesia de Fânzeres em Gondomar, lamentam o estado de declínio de uma casa em particular que sempre se destacou na Avenida da Carvalha – é comummente referida como a «antiga casa dos Capotes». Este nome chamou-nos a atenção, tanto mais que os descendentes desta família ainda são conhecidos por esta designação, tanto em Fânzeres como em Rio Tinto (já que o Alto de Soutelo ocupa a fronteira entre as duas freguesias e os “Capotes” foram donos de propriedades que ocupam esta área). Ainda hoje se debate entre os cidadãos se «Capote» é uma alcunha ou um nome próprio, embora a importância que este nome adquire para o nosso blogue diz respeito à história desta casa.

A importância da família para o local em questão corresponde precisamente ao “primeiro Capote”, comprovando-se, através de registos monográficos de Fânzeres, que se tratava da alcunha de José Martins Marques, que acabou por acompanhar os seus descendentes. José Martins Marques Capote era, por seu lado, herdeiro desta moradia que se presume ter sido erguida pelos seus pais algures entre os finais do século XIX e inícios do século XX, que já eram donos da fábrica ao lado, assinalada também por ruínas e um velho portão enferrujado, de acessórios para a indústria têxtil que já funcionava por volta de 1880. Mais tarde, em meados dos anos 30 do séc. XX, José Martins Marques instala na mesma avenida, em frente à sua casa, uma fábrica de produção de tecidos, expandindo o seu negócio, tornando-se uma das indústrias mais importantes do território.


Hoje em dia já não existe nenhuma fábrica ligada à indústria têxtil no alto da Avenida da Carvalha. A mais antiga, assinalada pelas ruínas, chegou a ocupar uma oficina automóvel durante os anos 80 que resistiu até aos primeiros anos do séc. XXI (e já nessa altura havia perdido todo o seu «brilho»). A fábrica em frente deixou de funcionar também e foi inteiramente demolida em 2004 para dar lugar a um prédio de habitação que dispõe de várias galerias comerciais. A bela moradia ainda resistiu… Ou foi resistindo, mediante o abandono (chegou-se a especular que seria motivo de litígio entre os herdeiros). Apesar do seu valor patrimonial, em termos históricos mas igualmente a nível de arquitectura e da azulejaria encontrava-se desclassificada (ainda se encontra!) e desprotegida, o que veio a facilitar o incêndio em Maio de 2013 que a destruiu e a transformasse no triste monumento que é hoje – um monumento em ruínas.


Mais recentemente, acompanhando o crescimento de mato incontrolado que agora envolve o que resta das ruínas, foram retirados (roubados?) os painéis de azulejos que eram visíveis no exterior da casa. Muito provavelmente são provenientes da antiga Fábrica de Cerâmica do Carvalhinho (mas não tivemos como o comprovar). Nas áreas superiores os painéis eram bastante coloridos, de influência Arte Nova, com composições de flores. Na fachada principal, virada para a avenida, destacavam-se como elo de ligação entre as janelas da cave e do primeiro piso painéis de azulejos policromados, azuis, com a representação das margens do Douro e de barcos rabelos.

A Santa Casa vai Investir 10 Milhões de Euros na Reabilitação Urbana



Muitos ainda se irão surpreender quando for revelado que já se estimou que a Santa Casa da Misericórdia do Porto possuía quase um terço dos imóveis da cidade, muitos dos quais no seu Centro Histórico. É um património inestimável e muito do qual serve precisamente para habitação.

Este investimento é uma boa notícia. Ao pretender candidatar mais de 50 imóveis ao programa Reabilitar para Arrendar gerido pela IHRU (Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana) e com um investimento na ordem dos 10 milhões de euros, estamos a falar na devolução de 300 habitações ao Porto. E a SCMP não pretende ficar por aqui, uma vez que detém um acordo com o governo a identificar e a apoiar outras instituições de carácter solidário detentoras de património dentro da área metropolitana para promover uma extensão deste programa.

O primeiro prédio da Santa Casa a entrar obras para ser reabilitado será o Nº98 da Rua Chã, destinado a habitação e comércio. Se as restantes reabilitações de casas pertencentes à instituição prosseguirem a bom ritmo, parte da paisagem urbana do Porto poderá mudar em pouco tempo… para melhor.

Fonte:

22/01/2016

Duas Distintas Casas na Avenida Fernão de Magalhães


Para quem costuma passear pela cidade do Porto, seja de carro ou a pé, não é invulgar encontrar duas casas ou dois prédios, lado a lado, abandonados e devolutos (até há exemplos de quatro ou cinco). Chamamos a esse fenómeno «Contágio Duplo» que, pela força de vários motivos que merecem ser estudados, leva-nos muitas vezes a confundir dois prédios como um só, principalmente quando a sua arquitectura não é muito distinta ou interpretamos dois casos distintos como se tratasse de algo único.

Esta confusão é justificável em muitos casos – ainda mais se julgarmos que duas casas ou dois prédios contíguos, idênticos, pertenceram ao mesmo proprietário. Mas no que toca ao exemplo de duas habitações na Avenida Fernão de Magalhães (os números 1207 e 1212 – 1216) não deveria haver margem para este género de equívocos. Cada uma apresenta diferentes características, já que são de épocas diferentes, embora não sejam completamente dissonantes entre si. Antes se diria que existiu uma procura de coerência no mais novo imóvel, que corresponde aos números 1212 e 1216.

Não sabemos quem foi o primeiro proprietário ou o arquitecto responsável pelo Nº1207, que apresenta alguns gradeamentos interessantes. A referência mais antiga desta casa refere uma proprietária, Eufrásia da Costa Gonçalves Vasconcelos, mas já é dos anos 30 e percebemos que fez obras de manutenção numa casa com já várias décadas de existência, datando possivelmente da mesma altura de abertura da Avenida Fernão de Magalhães (mas continuaremos a investigar para ver se descobrimos mais).



Em relação à casa com os números 1212 – 1216 dispomos de mais informação, que em termos históricos, principalmente no que toca à História da Arquitectura do Porto, é relevante. Um dos seus proprietários foi o arquitecto Mário Augusto Ferreira de Abreu, a cuja autoria correspondem alguns dos prédios mais notáveis da primeira metade do século XX situados na freguesia do Bonfim (e não só). O outro proprietário da casa (pois possuiu duas habitações separadas, ao contrário do que seria de esperar) era João Soares de Bastos, enquanto o principal técnico da obra foi o engenheiro Joaquim Mendes Jorge. Foi construída no ano de 1935 e reconhece-se uma ténue influência Art Deco (ou mais um vestígio severo) que podemos identificar noutros prédios da cidade, como os muito similares Nºs 32 – 36 da Rua de Brás Cubas da autoria de Mário Augusto Abreu, o que nos leva a concluir que esta casa foi desenhada precisamente pelo seu proprietário arquitecto. 

A Ronda de Audiências com Partidos pela Habita


É uma iniciativa tão interessante quanto urgente, pois da mesma forma que Portugal começou há alguns anos atrás a dar os primeiros passos numa verdadeira política de Reabilitação Urbana ainda há um atraso civilizacional efectivo no Direito e Garantia à Habitação (conforme as normas do Artigo 65º da Constituição Portuguesa e vários artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) ou na ausência da construção de um novo Paradigma de Habitação Social e/ou Comunitária.

O que é curioso no meio disto tudo é que temos de frisar várias inconsistências de funcionalidade que realmente dão razão a esta actuação por parte da Habita (Associação pelo Direito à Habitação e à Cidade) que foram verificadas durante uma altura de crise em que a nossa sociedade insistiu quase impávida a uma inversão de valores por parte dos estados que tornaram os resgates aos bancos mais cruciais do que a garantia de uma dada protecção dos interesses sociais dos cidadãos (enquanto a Islândia foi praticamente a única excepção nesta actuação). Como solução para uma crise financeira alimentou-se uma crise económica e centenas de milhares de cidadãos perderam as suas fontes de rendimento e consequentemente as suas habitações e, mesmo assim, com a entrega das suas casas aos bancos não deixaram de ter as mesmas dívidas ou, no caso das dívidas às finanças, abateram mais (ou muito mais) do que o valor que deviam ao entregar os seus imóveis. Queixas e reclamações à parte por parte desta extorsão tolerada por governos não surgiram efeitos desejados senão a noção de que há mais habitações vazias do que pessoas ao longo de todo o território – e tudo parece ainda mais grave quando milhares são excluídos do direito à habitação social porque são desempregados recentes e muitos ainda dormem nas ruas das nossas cidades sem existir (amplas) iniciativas para contrariar esse problema que não passe unicamente por albergues que as afastam. 

Políticas à parte (mas não vamos ser ingénuos ao ponto de julgar que o problema não é sobretudo político) há algo de errado quando sentimos que vivemos num sistema disfuncional e contemplamos a dolorosa ironia de que se aposta na Reabilitação Urbana para repovoar os centros desertificados das nossas cidades e não há soluções para não excluir milhares de cidadãos do Direito à Habitação apenas por razões económicas que poderia ser garantido com este esforço que está antes a alimentar o erro de que deve ser tomado apenas em vista o lucro (maioritariamente privado!) – e através deste a rude ganância que gera toda uma especulação imobiliária que faz aumentar preços e garante, sem sombra de dúvidas, um amplo parque habitacional vazio. Como se explica, por exemplo, que governos tenham resgatado e auxiliado bancos privados que possuem milhares de residências vazias e não lhes tenham exigido garantias em troca ou a penhora dessas mesmas residências para assim contrariar as perdas de inúmeros cidadãos que até então cumpriram os seus compromissos e subitamente se vêem sem as fontes de rendimento que até então tomaram como garantido e são friamente despojados?

À partida deparamo-nos com uma equação que deveria ser fácil de realizar, mas o assunto antes se torna complexo porque ATÉ AGORA nunca (ou quase nunca) existiram projectos de reconciliação da Reabilitação Urbana ou de Reocupação de Imóveis Vazios que o Estado deveria penhorar a quem simplesmente as arrecadou atropelando direitos básicos dos cidadãos para dar uma segunda oportunidade às verdadeiras vítimas da crise (falamos das pessoas e não dos bancos, ao contrário do que muitos ainda pensam), mas podemos assumir que o assunto abrange uma série de medidas que só poderiam ser tomadas após uma discussão mais alargada deste problema que tem sido debatido desde há muito por filósofos, sociólogos, antropólogos, economistas e activistas mas para o qual não há efectivamente uma grande vontade para resolver por parte das autoridades responsáveis ou uma resposta fácil ou resumida (mas desde quando qualquer decisão importante na vida deve ser tomada mediante respostas fáceis? Se as desejamos e as levamos a cabo sem a devida experiência cometemos erros; mas se nas respostas mais simples encontrarmos realmente a solução adequada somos filósofos!).

Sem nos estendermos e pôr de parte, por agora, a apresentação de uma dada série de estudos levados a cabo por quem se interessa pelos problemas da Habitação, ou melhor, do Direito à Habitação, para contrariar o esvaziamento dos centros das cidades históricas como o Porto que geram abandonos, degradações e todo aquele processo que resumimos num etc, etc, etc até alguém reclamar que casas ou prédios históricos devolutos e a desertificação são uma vergonha, descrevemos o conjunto de intenções da Habita:

1)      Não haver despejos sem que se assegure um tecto digno;

2)      Que a primeira habitação própria e permanente não possa ser penhorada;

3)      Aumentar urgentemente, e em número suficiente, a oferta pública de habitação com rendas adequadas ao rendimento das pessoas;

4)      Implementar uma efectiva regulação do mercado de habitação, combatendo a especulação imobiliária;

5)      Valorizar a Reabilitação Urbana na sua diversidade, garantindo a manutenção da função residencial e a protecção social;

6)      Desenvolver um plano urgente para pessoas sem casa;

7)      Democratizar verdadeiramente a vida nas cidades para que todos os seus habitantes tenham direito ao seu usufruto, acesso transparente à informação e direito à participação efectiva na regulação e tomadas de decisão sobre todas as dimensões urbanas fundamentais para a sua vida, entre estas a habitação, o espaço público, os equipamentos e os transportes.


Um valioso conjunto de intenções, ou exigências, bastante simples mas que realmente não terão (pelos mais diversos motivos) respostas fáceis – o que não impede de as subescrevermos. 

Fonte:

http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/sociedade/detalhe/associacao_habita_apela_a_suspensao_dos_despejos.html

21/01/2016

A Casa Manoel de Oliveira Já Não Vai Permanecer Abandonada

Há quem a descreva como «Mamarracho» ou «Elefante Branco», tendo passado por um fenómeno similar ao Edifício (Pouco) Transparente em frente ao Parque da Cidade, junto ao litoral, cujo propósito foi debatido durante anos, apesar da despesa gerada e do estrago paisagístico. Felizmente, anos depois, a Câmara Municipal do Porto terá encontrado uma solução que passava pela sua transformação em galeria comercial, arrendando várias parcelas do seu espaço a bares e lojas, mas o mesmo não se poderá dizer da Casa Manoel de Oliveira, cuja função já estava atribuída mas que nunca terá servido o seu propósito.

A ideia desta casa data de 1998 para reunir o espólio do realizador e a sua construção, da autoria do arquitecto Souto Moura, seria concluída em 2003. Mas a partir dessa data a casa permaneceu abandonada. Era o mais novo monumento abandonado da cidade do Porto (e era certo que muitos outros abandonados poderiam ter sido reabilitados para servir o mesmo propósito, mas cada caso é um caso), e o principal motivo deveu-se essencialmente a nunca ter sido formalizado um acordo adequado com a Câmara para uso da casa e uma conduta imprópria do poder local que sempre pareceu mais própria de quem banaliza a cultura e desvaloriza personalidades ilustres da cidade, o que infelizmente resultou naquilo que mais se temia ao longo dos anos – que a Casa Manoel de Oliveira jamais funcionaria como tal ou que acolheria o espólio do cineasta, que acabou por falecer em Abril de 2015.

Seria de esperar que após uma primeira tentativa da Câmara Municipal do Porto para tentar vender o que uma maioria entendeu ser um elefante branco, que a dita casa permanecesse abandonada por bastante mais tempo. Mas esta semana foi anunciada a boa notícia de que foi comprada por Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, para servir de sede para a sua fundação, reconhecendo o valor patrimonial de um edifício de Souto Moura, a sua localização vantajosa e as potencialidades que apresenta enquanto espaço cultural. 

Fonte:

http://www.dn.pt/artes/interior/marido-de-isabel-dos-santos-compra-casa-de-manoel-de-oliveira-para-sede-de-fundacao-4986286.html

http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2016-01-19-Marido-de-Isabel-dos-Santos-compra-casa-Manoel-de-Oliveira

20/01/2016

As Ruínas da EFANOR


Ainda hoje se debate se o estado de abandono avançado que resultou na completa degradação de uma das mais interessantes partes do imenso complexo da EFANOR de Matosinhos e do seu magnífico motor e parte de uma turbina a vapor é um crime contra o património industrial da região. Um crime algo irónico, pois representa apenas uma pequena parte de um complexo quase inteiramente demolido para dar lugar a outros empreendimentos que não pareceu ferir as susceptibilidades dos que defendem a protecção de vestígios industriais emblemáticos ou com décadas de existência, mas que permitiu de certa maneira a “preservação” de um bem digno de apreciação.

A história da EFANOR (Empresa Fabril do Norte), bem conhecida, remonta a 1904 através da visão do empresário Delfim Pereira da Costa, que a inaugurou em 1907 para a produção de carrinhos de algodão para coser e bordar – pelo que ficou também conhecida pela Fábrica dos Carrinhos da Senhora da Hora. O seu trabalho foi posteriormente seguido pelo empreendedor Manuel Pinto de Azevedo (que está injustamente relacionado com outros imóveis degradados já descritos neste blogue – sobretudo na Rua do Bonfim), que adquire a fábrica em 1922. Representativa de uma era de importante desenvolvimento industrial do nosso país, a EFANOR chegou a ter mais de 3000 trabalhadores e foi pioneira tanto em maquinaria como no apoio social concedido aos operários, que além de um bairro com dormitórios incluía uma creche para os seus filhos e até um complexo desportivo, jamais descurando ainda a garantia de cuidados médicos e amplos refeitórios para alimentar os colaboradores.


É certo que os seus trabalhadores passaram por tempos muitos difíceis ao longo dos tempos, mas a machadada final ocorreu nos anos 90 do século XX, quando o complexo fabril encerrou de vez na transição para uma era em que a China ganhou maior protagonismo na produção têxtil e a União Europeia abriu os seus mercados para escoamento dos seus produtos com as garantias fiscais com as quais indústrias têxteis dos estados-membros como o nosso nunca (ou dificilmente) poderiam competir.

Histórias à parte, o Colégio EFANOR, que é propriedade da SONAE, ainda ocupa o edifício administrativo da antiga fábrica, mas o pequeno edifício da tintura, com a sua visível chaminé e rasgado por amplos janelões, mais não é do que uma trágica ruína que se destaca na paisagem. Aparentemente, o contrato com a Fundação de Serralves para a instalação de um pólo no local ainda não permitiu que (o que resta d)o edifício e a sua maquinaria sejam poupados à acção do tempo.




Recentemente, a Câmara Municipal de Matosinhos demonstrou todo o interesse em dar um passo em frente para auxiliar e agilizar o seu processo de reabilitação enquanto intervém na requalificação do espaço envolvente.

Ideias para Salvar os Centros Comerciais Fantasma (de Braga)

Trata-se de uma iniciativa que a cidade do Porto deveria importar para resgatar os seus próprios centros comerciais fantasma de 1ª geração (como o Stop, Cedofeita e o Brasília, entre outros) para que não se desertifiquem totalmente: A Associação Comercial de Braga avançou com o projecto "Activar Braga" para lançar a cabo um estudo sério multidisciplinar para perceber o potencial dos antigos shoppings das décadas de 70/80 (e até de 90) e recuperá-los, já que muitos se encontram abandonados e parcialmente devolutos.

A nova estratégia de intervenção só será conhecida após este estudo de diagnóstico, que dependerá de uma candidatura da associação apresentada ao Sistema de Apoio das Acções Colectivas (SIAC) do Programa Portugal 2020. Não é a primeira vez que Associação Comercial de Braga manifesta o seu interesse em desenvolver novas ideias para revitalizar estes espaços, pois em 2011 já apresentava à Câmara Municipal de Braga um plano que passava por centros de incubação de empresas, mas que não se chegou a concretizar.

É certo que pelo seu lado, o poder local já terá recebido projectos interessantes para requalificar alguns destes antigos centros comerciais através do recente Concurso de Ideias para a Regeneração Urbana da Avenida da Liberdade que passarão a atribuição de novas funções destes espaços através da sua reabilitação. Enquanto isso, ansiamos para que no Porto se verifique uma iniciativa similar e não se deixe morrer o que futuramente se pode traduzir no reaproveitamento de espaços sobreviventes que, em relação ao seu destino como eternas galerias comerciais, representam ainda uma incógnita.

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