22/01/2016

Duas Distintas Casas na Avenida Fernão de Magalhães


Para quem costuma passear pela cidade do Porto, seja de carro ou a pé, não é invulgar encontrar duas casas ou dois prédios, lado a lado, abandonados e devolutos (até há exemplos de quatro ou cinco). Chamamos a esse fenómeno «Contágio Duplo» que, pela força de vários motivos que merecem ser estudados, leva-nos muitas vezes a confundir dois prédios como um só, principalmente quando a sua arquitectura não é muito distinta ou interpretamos dois casos distintos como se tratasse de algo único.

Esta confusão é justificável em muitos casos – ainda mais se julgarmos que duas casas ou dois prédios contíguos, idênticos, pertenceram ao mesmo proprietário. Mas no que toca ao exemplo de duas habitações na Avenida Fernão de Magalhães (os números 1207 e 1212 – 1216) não deveria haver margem para este género de equívocos. Cada uma apresenta diferentes características, já que são de épocas diferentes, embora não sejam completamente dissonantes entre si. Antes se diria que existiu uma procura de coerência no mais novo imóvel, que corresponde aos números 1212 e 1216.

Não sabemos quem foi o primeiro proprietário ou o arquitecto responsável pelo Nº1207, que apresenta alguns gradeamentos interessantes. A referência mais antiga desta casa refere uma proprietária, Eufrásia da Costa Gonçalves Vasconcelos, mas já é dos anos 30 e percebemos que fez obras de manutenção numa casa com já várias décadas de existência, datando possivelmente da mesma altura de abertura da Avenida Fernão de Magalhães (mas continuaremos a investigar para ver se descobrimos mais).



Em relação à casa com os números 1212 – 1216 dispomos de mais informação, que em termos históricos, principalmente no que toca à História da Arquitectura do Porto, é relevante. Um dos seus proprietários foi o arquitecto Mário Augusto Ferreira de Abreu, a cuja autoria correspondem alguns dos prédios mais notáveis da primeira metade do século XX situados na freguesia do Bonfim (e não só). O outro proprietário da casa (pois possuiu duas habitações separadas, ao contrário do que seria de esperar) era João Soares de Bastos, enquanto o principal técnico da obra foi o engenheiro Joaquim Mendes Jorge. Foi construída no ano de 1935 e reconhece-se uma ténue influência Art Deco (ou mais um vestígio severo) que podemos identificar noutros prédios da cidade, como os muito similares Nºs 32 – 36 da Rua de Brás Cubas da autoria de Mário Augusto Abreu, o que nos leva a concluir que esta casa foi desenhada precisamente pelo seu proprietário arquitecto. 

A Ronda de Audiências com Partidos pela Habita


É uma iniciativa tão interessante quanto urgente, pois da mesma forma que Portugal começou há alguns anos atrás a dar os primeiros passos numa verdadeira política de Reabilitação Urbana ainda há um atraso civilizacional efectivo no Direito e Garantia à Habitação (conforme as normas do Artigo 65º da Constituição Portuguesa e vários artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) ou na ausência da construção de um novo Paradigma de Habitação Social e/ou Comunitária.

O que é curioso no meio disto tudo é que temos de frisar várias inconsistências de funcionalidade que realmente dão razão a esta actuação por parte da Habita (Associação pelo Direito à Habitação e à Cidade) que foram verificadas durante uma altura de crise em que a nossa sociedade insistiu quase impávida a uma inversão de valores por parte dos estados que tornaram os resgates aos bancos mais cruciais do que a garantia de uma dada protecção dos interesses sociais dos cidadãos (enquanto a Islândia foi praticamente a única excepção nesta actuação). Como solução para uma crise financeira alimentou-se uma crise económica e centenas de milhares de cidadãos perderam as suas fontes de rendimento e consequentemente as suas habitações e, mesmo assim, com a entrega das suas casas aos bancos não deixaram de ter as mesmas dívidas ou, no caso das dívidas às finanças, abateram mais (ou muito mais) do que o valor que deviam ao entregar os seus imóveis. Queixas e reclamações à parte por parte desta extorsão tolerada por governos não surgiram efeitos desejados senão a noção de que há mais habitações vazias do que pessoas ao longo de todo o território – e tudo parece ainda mais grave quando milhares são excluídos do direito à habitação social porque são desempregados recentes e muitos ainda dormem nas ruas das nossas cidades sem existir (amplas) iniciativas para contrariar esse problema que não passe unicamente por albergues que as afastam. 

Políticas à parte (mas não vamos ser ingénuos ao ponto de julgar que o problema não é sobretudo político) há algo de errado quando sentimos que vivemos num sistema disfuncional e contemplamos a dolorosa ironia de que se aposta na Reabilitação Urbana para repovoar os centros desertificados das nossas cidades e não há soluções para não excluir milhares de cidadãos do Direito à Habitação apenas por razões económicas que poderia ser garantido com este esforço que está antes a alimentar o erro de que deve ser tomado apenas em vista o lucro (maioritariamente privado!) – e através deste a rude ganância que gera toda uma especulação imobiliária que faz aumentar preços e garante, sem sombra de dúvidas, um amplo parque habitacional vazio. Como se explica, por exemplo, que governos tenham resgatado e auxiliado bancos privados que possuem milhares de residências vazias e não lhes tenham exigido garantias em troca ou a penhora dessas mesmas residências para assim contrariar as perdas de inúmeros cidadãos que até então cumpriram os seus compromissos e subitamente se vêem sem as fontes de rendimento que até então tomaram como garantido e são friamente despojados?

À partida deparamo-nos com uma equação que deveria ser fácil de realizar, mas o assunto antes se torna complexo porque ATÉ AGORA nunca (ou quase nunca) existiram projectos de reconciliação da Reabilitação Urbana ou de Reocupação de Imóveis Vazios que o Estado deveria penhorar a quem simplesmente as arrecadou atropelando direitos básicos dos cidadãos para dar uma segunda oportunidade às verdadeiras vítimas da crise (falamos das pessoas e não dos bancos, ao contrário do que muitos ainda pensam), mas podemos assumir que o assunto abrange uma série de medidas que só poderiam ser tomadas após uma discussão mais alargada deste problema que tem sido debatido desde há muito por filósofos, sociólogos, antropólogos, economistas e activistas mas para o qual não há efectivamente uma grande vontade para resolver por parte das autoridades responsáveis ou uma resposta fácil ou resumida (mas desde quando qualquer decisão importante na vida deve ser tomada mediante respostas fáceis? Se as desejamos e as levamos a cabo sem a devida experiência cometemos erros; mas se nas respostas mais simples encontrarmos realmente a solução adequada somos filósofos!).

Sem nos estendermos e pôr de parte, por agora, a apresentação de uma dada série de estudos levados a cabo por quem se interessa pelos problemas da Habitação, ou melhor, do Direito à Habitação, para contrariar o esvaziamento dos centros das cidades históricas como o Porto que geram abandonos, degradações e todo aquele processo que resumimos num etc, etc, etc até alguém reclamar que casas ou prédios históricos devolutos e a desertificação são uma vergonha, descrevemos o conjunto de intenções da Habita:

1)      Não haver despejos sem que se assegure um tecto digno;

2)      Que a primeira habitação própria e permanente não possa ser penhorada;

3)      Aumentar urgentemente, e em número suficiente, a oferta pública de habitação com rendas adequadas ao rendimento das pessoas;

4)      Implementar uma efectiva regulação do mercado de habitação, combatendo a especulação imobiliária;

5)      Valorizar a Reabilitação Urbana na sua diversidade, garantindo a manutenção da função residencial e a protecção social;

6)      Desenvolver um plano urgente para pessoas sem casa;

7)      Democratizar verdadeiramente a vida nas cidades para que todos os seus habitantes tenham direito ao seu usufruto, acesso transparente à informação e direito à participação efectiva na regulação e tomadas de decisão sobre todas as dimensões urbanas fundamentais para a sua vida, entre estas a habitação, o espaço público, os equipamentos e os transportes.


Um valioso conjunto de intenções, ou exigências, bastante simples mas que realmente não terão (pelos mais diversos motivos) respostas fáceis – o que não impede de as subescrevermos. 

Fonte:

http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/sociedade/detalhe/associacao_habita_apela_a_suspensao_dos_despejos.html

21/01/2016

A Casa Manoel de Oliveira Já Não Vai Permanecer Abandonada

Há quem a descreva como «Mamarracho» ou «Elefante Branco», tendo passado por um fenómeno similar ao Edifício (Pouco) Transparente em frente ao Parque da Cidade, junto ao litoral, cujo propósito foi debatido durante anos, apesar da despesa gerada e do estrago paisagístico. Felizmente, anos depois, a Câmara Municipal do Porto terá encontrado uma solução que passava pela sua transformação em galeria comercial, arrendando várias parcelas do seu espaço a bares e lojas, mas o mesmo não se poderá dizer da Casa Manoel de Oliveira, cuja função já estava atribuída mas que nunca terá servido o seu propósito.

A ideia desta casa data de 1998 para reunir o espólio do realizador e a sua construção, da autoria do arquitecto Souto Moura, seria concluída em 2003. Mas a partir dessa data a casa permaneceu abandonada. Era o mais novo monumento abandonado da cidade do Porto (e era certo que muitos outros abandonados poderiam ter sido reabilitados para servir o mesmo propósito, mas cada caso é um caso), e o principal motivo deveu-se essencialmente a nunca ter sido formalizado um acordo adequado com a Câmara para uso da casa e uma conduta imprópria do poder local que sempre pareceu mais própria de quem banaliza a cultura e desvaloriza personalidades ilustres da cidade, o que infelizmente resultou naquilo que mais se temia ao longo dos anos – que a Casa Manoel de Oliveira jamais funcionaria como tal ou que acolheria o espólio do cineasta, que acabou por falecer em Abril de 2015.

Seria de esperar que após uma primeira tentativa da Câmara Municipal do Porto para tentar vender o que uma maioria entendeu ser um elefante branco, que a dita casa permanecesse abandonada por bastante mais tempo. Mas esta semana foi anunciada a boa notícia de que foi comprada por Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, para servir de sede para a sua fundação, reconhecendo o valor patrimonial de um edifício de Souto Moura, a sua localização vantajosa e as potencialidades que apresenta enquanto espaço cultural. 

Fonte:

http://www.dn.pt/artes/interior/marido-de-isabel-dos-santos-compra-casa-de-manoel-de-oliveira-para-sede-de-fundacao-4986286.html

http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2016-01-19-Marido-de-Isabel-dos-Santos-compra-casa-Manoel-de-Oliveira

20/01/2016

As Ruínas da EFANOR


Ainda hoje se debate se o estado de abandono avançado que resultou na completa degradação de uma das mais interessantes partes do imenso complexo da EFANOR de Matosinhos e do seu magnífico motor e parte de uma turbina a vapor é um crime contra o património industrial da região. Um crime algo irónico, pois representa apenas uma pequena parte de um complexo quase inteiramente demolido para dar lugar a outros empreendimentos que não pareceu ferir as susceptibilidades dos que defendem a protecção de vestígios industriais emblemáticos ou com décadas de existência, mas que permitiu de certa maneira a “preservação” de um bem digno de apreciação.

A história da EFANOR (Empresa Fabril do Norte), bem conhecida, remonta a 1904 através da visão do empresário Delfim Pereira da Costa, que a inaugurou em 1907 para a produção de carrinhos de algodão para coser e bordar – pelo que ficou também conhecida pela Fábrica dos Carrinhos da Senhora da Hora. O seu trabalho foi posteriormente seguido pelo empreendedor Manuel Pinto de Azevedo (que está injustamente relacionado com outros imóveis degradados já descritos neste blogue – sobretudo na Rua do Bonfim), que adquire a fábrica em 1922. Representativa de uma era de importante desenvolvimento industrial do nosso país, a EFANOR chegou a ter mais de 3000 trabalhadores e foi pioneira tanto em maquinaria como no apoio social concedido aos operários, que além de um bairro com dormitórios incluía uma creche para os seus filhos e até um complexo desportivo, jamais descurando ainda a garantia de cuidados médicos e amplos refeitórios para alimentar os colaboradores.


É certo que os seus trabalhadores passaram por tempos muitos difíceis ao longo dos tempos, mas a machadada final ocorreu nos anos 90 do século XX, quando o complexo fabril encerrou de vez na transição para uma era em que a China ganhou maior protagonismo na produção têxtil e a União Europeia abriu os seus mercados para escoamento dos seus produtos com as garantias fiscais com as quais indústrias têxteis dos estados-membros como o nosso nunca (ou dificilmente) poderiam competir.

Histórias à parte, o Colégio EFANOR, que é propriedade da SONAE, ainda ocupa o edifício administrativo da antiga fábrica, mas o pequeno edifício da tintura, com a sua visível chaminé e rasgado por amplos janelões, mais não é do que uma trágica ruína que se destaca na paisagem. Aparentemente, o contrato com a Fundação de Serralves para a instalação de um pólo no local ainda não permitiu que (o que resta d)o edifício e a sua maquinaria sejam poupados à acção do tempo.




Recentemente, a Câmara Municipal de Matosinhos demonstrou todo o interesse em dar um passo em frente para auxiliar e agilizar o seu processo de reabilitação enquanto intervém na requalificação do espaço envolvente.

Ideias para Salvar os Centros Comerciais Fantasma (de Braga)

Trata-se de uma iniciativa que a cidade do Porto deveria importar para resgatar os seus próprios centros comerciais fantasma de 1ª geração (como o Stop, Cedofeita e o Brasília, entre outros) para que não se desertifiquem totalmente: A Associação Comercial de Braga avançou com o projecto "Activar Braga" para lançar a cabo um estudo sério multidisciplinar para perceber o potencial dos antigos shoppings das décadas de 70/80 (e até de 90) e recuperá-los, já que muitos se encontram abandonados e parcialmente devolutos.

A nova estratégia de intervenção só será conhecida após este estudo de diagnóstico, que dependerá de uma candidatura da associação apresentada ao Sistema de Apoio das Acções Colectivas (SIAC) do Programa Portugal 2020. Não é a primeira vez que Associação Comercial de Braga manifesta o seu interesse em desenvolver novas ideias para revitalizar estes espaços, pois em 2011 já apresentava à Câmara Municipal de Braga um plano que passava por centros de incubação de empresas, mas que não se chegou a concretizar.

É certo que pelo seu lado, o poder local já terá recebido projectos interessantes para requalificar alguns destes antigos centros comerciais através do recente Concurso de Ideias para a Regeneração Urbana da Avenida da Liberdade que passarão a atribuição de novas funções destes espaços através da sua reabilitação. Enquanto isso, ansiamos para que no Porto se verifique uma iniciativa similar e não se deixe morrer o que futuramente se pode traduzir no reaproveitamento de espaços sobreviventes que, em relação ao seu destino como eternas galerias comerciais, representam ainda uma incógnita.

Abandonados entre a Avenida de Camilo e a Rua do Bonfim

Durante anos esta imagem de um prédio influenciado pelas linhas da Art Deco de entradas completamente entaipadas e de um prédio característico com vários painéis de azulejos incomodava com passava pela Avenida de Camilo. Houve até quem julgasse que se tratasse de um único imóvel, mas um olhar mais atento comprovará que são ambos distintos.

Actualmente, o prédio mais devoluto (que na realidade apresenta as suas traseiras para a Avenida de Camilo enquanto a frente principal se situa na Rua do Bonfim) está a ser intervencionado e a sua recuperação irá mudar por completo o cenário com que durante muitos anos nos deparamos. Data da segunda metade do século XIX, mas a sua característica mais notável diz respeito ao espaço onde funcionou a Antiga Tabacaria Veludo – nome pelo qual ficou mais conhecido o prédio – que ocupou os Nºs 84 e 86 da Rua do Bonfim a partir de 1932 segundo vontade da proprietária Maria do Carmo Resende da Silva, que intervenciona neste imóvel de modo a conter uma pequena galeria comercial que ainda hoje lá se encontra. Esperamos que no decorrer das obras de reabilitação que ao menos não sejam removidas as históricas letras da “Antiga Tabacaria Veludo”, relíquia gráfica dos anos 30 do séc. XX.

Já o prédio que se encontra ao lado, que também faz contacto com a Rua do Bonfim mas cuja fachada mais expressiva se encontra virada para a Avenida de Camilo (Nºs 344 – 346), não vai receber uma intervenção tão depressa. Com linhas muito rígidas, mas menos agravadas pelos relevos de flores em betão, foi construído segundo vontade do industrial Manuel Pinto de Azevedo, contando com o apoio financeiro de Carlos Manuel Mendonça de Azevedo Carvalho, com o propósito de arrendar os seus apartamentos. O prédio data de 1932 e o responsável pelo projecto foi precisamente Carlos Manuel Mendonça de Azevedo. Mais tarde, em 1935, o proprietário conta com o arquitecto Leandro de Morais para expandir o conjunto edificado para arrendamento e por sua vontade é erguido o prédio curvo que se situa no canto entre as Ruas do Bonfim e a Avenida de Camilo. Este, pelo menos, não se encontra vazio ou devoluto.

19/01/2016

Casa Nº541 da Rua de Santos Pousada

No ano em que este pequeno prédio para habitação foi erguido, em 1913, a Rua de Santos Pousada era designada por Rua de S. Jerónimo. E o proprietário responsável pela construção deste prédio foi Salvador Gonçalves Valentim, que contara com o apoio do mestre-de-obras José Maria de Barros, embora se presuma que o desenho seja do proprietário. Mais tarde Salvador Valentim torna-se arquitecto e passa a assinar projectos, sendo responsável por fazer várias alterações na sua casa ao longo dos anos seguintes.

A actividade de Salvador Gonçalves Valentim como arquitecto na cidade do Porto é conhecida e está bem referenciada devido ao seu projecto da magnífica Garagem que corresponde aos os Nºs 140 - 144 - 150 - 156 - 160 da Avenida de Camilo, com uma nítida influência Arte Nova severa da qual se destaca o curioso painel de azulejos no remate central da fachada. Mas como criativo, Salvador Gonçalves Valentim fez mais do projectar edíficios e, em 1929 ergue uma oficina de ourivesaria nesta mesma casa. 

Actualmente o pequeno prédio encontra-se à venda, mas apresenta um estado calamitoso, agravado pela ausência parcial de paineis de azulejos, portas e portadas de janelas degradadas e parte da fachada ocupada por vegetação.

As Obras do “Monumental” continuam…



As obras do antigo Café Monumental continuam… para ser devolvido à cidade do Porto como hotel. É certo e merecido que o anúncio da requalificação deste magnífico edifício situado na Avenida dos Aliados já deveria ter sido destacado há muito – ocorreu em 2014, quando o empresário Mário Ferreira deu a conhecer o seu interesse em adquirir este imóvel dos anos 30, que é um autêntico palacete, para posteriormente apresentar o seu projecto para reabilitá-lo e transformá-lo num hotel de 5 estrelas.

Trata-se de um investimento de 20 milhões de euros que lhe restituirá toda a dignidade. O fim das obras e a sua inauguração como “Hotel Monumental” estão previstos para o início de 2017. Esperamos que desta vez, a ocorrer a próxima visita do Papa ao Porto, um dos mais nobres edifícios da cidade não se encontre completo coberto por toldes para ocultar a sua vergonhosa degradação. Enquanto as obras prosseguem, acompanharemos a sua reabilitação com todo o interesse.

18/01/2016

A saída do LAHB Social da Ilha da Bela Vista



Tinha tudo para funcionar bem e acabou por não funcionar. É a isto o que se resume a existência de um Laboratório de Habitação Básica e Social para acompanhar a Reabilitação da Ilha da Bela Vista, o que nos deixa apreensivos.

Há muito que estamos familiarizados e destacamos o notável papel do antropólogo Fernando Matos Rodrigues, um dos maiores especialistas sobre os antigos bairros operários e ilhas (embora semelhantes, não devem ser confundidos) instalados durante o século XIX na cidade do Porto. Poucos se deram a um estudo tão extensivos deste género de habitações e comunidades únicas que estiveram em vias de desaparecer ou que lamentavelmente se degradaram até obterem a actual imagem que temos destes locais – pobres, devolutos, sem as mínimas condições para habitação. No entanto, através do trabalho desenvolvido por Fernando Matos Rodrigues, fomos levados a considerar estes velhos bairros populares e os seus moradores como parte do rico Património do Porto, um património que convinha ser preservado e sobretudo reabilitado para garantir o máximo de qualidade e dignidade para os residentes ainda fiéis às antigas moradas dos seus pais e das suas distintas comunidades (que em muitos aspectos, devido à proximidade entre os vizinhos, ainda são bem mais solidárias do que muitas espalhadas pelos bairros sociais do Porto desenvolvidos durante o Estado Novo e cujo modelo de habitação, infelizmente, ainda não foi inteiramente ultrapassado).

Como fundador do LABH Social – Laboratório de Habitação Básica e Social e no seu acompanhamento no processo experimental de recuperação da Ilha da Bela Vista, equacionando projectos de alunos da Escola Superior do Porto (ESAP), estamos perfeitamente conscientes que Fernando Matos Rodrigues deu um passo importante no sentido de replicar um modelo de reabilitação que futuramente (esperamos) seja aplicado na requalificação das restantes ilhas do Porto. Esse é um aspecto que teremos de frisar dado todo este interesse em menosprezar algo tão importante quanto um LABH Social e o papel de outras disciplinas na área da Reabilitação Urbana. É por isso que lamentamos este afastamento, tão mal-esclarecido, de um verdadeiro profissional e de um valioso meio que ainda podem representar um papel de maior destaque no futuro da requalificação e repovoação do centro da cidade e no debate em torno de um novo paradigma (ainda ausente, mas em meados de ser desenvolvido) para a Habitação Social nos Centros Históricos. 

Fonte:

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